E no Terceiro Dia…

“…resurrexit a mortuis, ascendit ad caelos…”
(Symbolum Apostolicum)

Em meados do início do milênio, Don Miguel, o esquecido reitor da Cidade Universitária, compadeceu-se com um mendigo na rua de seu ofício. Com uma mão deu-lhe uma moeda, com a outra protegeu, do vento, o seu colar com uma pena de águia. Ao contrário de muitos, Don Miguel não desviou a face quando o mendigo fitou seus olhos. Retribuiu o sorriso e caminhou, sozinho, a despeito da sua nobreza local. Mesmo sério e, aparentemente, mau humorado, ostentou a caridade ardente aos seus alunos. “Chegamos ao fundo de nossa própria miséria, portanto reconhecemo-nos e compadecemo-nos, sentimos e consentimos, salvando a alma do sofrimento comum”, proferiu na palestra do dia anterior, antes do retiro de três dias.

Ninguém conhecia os planos do professor, que partiu ao exílio. No primeiro dia, na cabana de madeira cercada por árvores finas no bosque Trianon, entregou-se à escrita. Pensava em grandes questões da filosofia marxista, como a pobreza alheia, e folhas e folhas foram redigidas com uma caligrafia que só ele poderia decifrar. Mesmo vigoroso, de tempo em tempo seus dedos doíam. Descansou a cabeça no encosto da cadeira. Pela primeira vez, em muitas estações vividas, sentiu solidão.

Encolheu-se, estranhou o sentimento, apertou os dedos e manteve os olhos perdidos na lareira. O pescoço doeu e segurou o colar com uma pena de águia. O silêncio incomodava os ouvidos e a solidão apertou sua alma, desta vez mais forte. Algo queimava por dentro. Com essa dor acompanhava a imagem de Cristina e a memória do irmão.

Reviveu na pele os últimos dias de um quase-romance, cujo destino fora desviado pelas indecisões. Cristina o deixou sem opção ao saber que ele estava inseguro com o relacionamento. Brigavam frequentemente. Ele não suportou as cobranças dela e recorreu à solidão flexível, enquanto ela, impaciente, exigiu-lhe uma posição definitiva, da qual ele preferiu abster-se com o propósito de servir a seu próprio devir. A separação inevitável e traumatizante marcou-o com sentimentos inversos e foi agravada pela perda prematura de seu único irmão. O irmão sempre estaria com ele. Mas, ela? Por que Cristina visitava sua consciência no êxodo? Por que, mesmo sabendo que ela deveras lhe provocara dores, alimentava as lembranças ao invés do esquecimento? Evocar a memória causava-lhe um sentimento dúbio de gratidão e de desespero. Nesses instantes, ocupava-se com a leitura. Lia muito, a fim de ater a cabeça entretida.

A leitura não deu conta da sua angústia. Com quem poderia conversar? Lembrou-se de três pessoas na região – um oráculo, um índio e um rabino – e indagou-se se, para evitar aquela estranha sensação, poderia prestar-lhes visitas. A saúde não era mais a de um garoto e sua atividade intelectual estava fatigada.

Decidiu caminhar pelo bosque. Questionou o porquê daquela agonia, sobretudo da tristeza que acompanhava as recordações de Cristina, uma vez que entristecer-se, tão profundamente, não era de sua personalidade. Dia nublado, vento frio e verde na natureza. Sabia que ali próximo, no vilarejo Rouxinol, vivia o oráculo, conhecido pelos seus conselhos aos grandes mestres da região. Julgou prudente o tempo que ainda restava naquela diária para prestar-lhe uma visita antes do entardecer. Imaginou encontrar uma pessoa carismática e afetuosa. De fato, não conhecia sua idade nem sua face, ainda que soubesse quem era a douta pessoa da casa azul e dourada de arquitetura portuguesa.

Após alguns goles de chá e olhares silenciosos, ela, na orada, ajeitou os óculos. “É o teu inconsciente”, disse ela, com as duas mãos envoltas na caneca. “A experiência fica. O corpo carrega as emoções das vivências anteriores”, continuou, perguntando a si mesma por que o colar com uma pena de águia ainda estava no pescoço de Don Miguel – ela sabia que fora um presente de Cristina. “A separação de vocês foi traumatizante, muitas discussões e chantagens, você ficou sozinho por um longo tempo quando foi enviado ao Norte para trabalhar”, prosseguiu, séria. Ele buscava os olhos azuis da senhora por detrás dos óculos finos. “Essas coisas, esses sentimentos vividos, positivos ou negativos, ficam gravados”, continuou. Era uma sala escura. No candelabro de três braços só havia uma vela acesa. “O inconsciente joga essas emoções no momento em que você vivencia uma situação parecida com aquela a qual vivenciou com esta moça. Não é por acaso que atores fazem boas atuações quando já viveram algo semelhante aos papéis deles. Está na carne. O inconsciente traz as mesmas emoções originais e o corpo grita pelos mesmos sintomas, apesar de o tempo ser outro”. Olhou para o alto. Don Miguel desviou a atenção para o teto. “De novo”, disse pausadamente, “você ficou sozinho, longe das coisas e das pessoas de quem mais gosta, uma situação parecida com a do rompimento da relação com Cristina. Na verdade, eu acho que você se sentiu solitário mesmo na presença dela. E agora, que ficou sozinho, lembrou-se dela, de como é não estar consigo mesmo. O inconsciente brincou com você”. Ela fitou a luz branda da única vela. “Muitas vezes precisamos que algo falte para darmos valor às ações e às coisas que foram perdidas. As emoções lá de trás voltaram porque você vivenciou novamente a perda. A perda de você mesmo”. Sorriu singelamente. “Foi isso”, concluiu, com um gole de chá.

Don Miguel ouviu argumentos convincentes que o confortaram no caminho à cabana. Aparentemente, a tarefa se tornou consciente. “Se o oráculo estiver correto”, pensou, “eu só preciso deixar Cristina e seus problemas no passado”. Cabeça baixa, via os próprios passos. Ouvidos longe, não percebeu o canto de uma águia próxima. Apenas o frio o tocou, apressando-o.

Na cabana, experimentou mais uma vez, agora um pouco distante, a saudade de Cristina, que ainda o entristecia. Escrever o fazia lembrar dos passeios noturnos pela famosa avenida da cidade, as danças nos bailes e as caminhadas noturnas pelos parques. Jogou os manuscritos inacabados no canto da mesa e deitou-se na cama de bambu. Fitou a janela, céu estrelado. Rememorou o oráculo dizer, “Você é outra pessoa, Miguel. Ela não é mais quem ela era. C’etáit un coup de feu! Foi um golpe de fogo! Paixão. Não criou amor. Passou. Não durou…” Adormeceu.

No segundo dia, Don Miguel acordou lentamente. Os olhos fixos no teto pareciam não querer fazer ruídos. Uma águia gritou longe. Ainda deitado, disse para si mesmo que deveria ver o índio. Levantou-se, desenhou um pássaro em uma folha média e partiu em direção às margens do rio, onde morava Nuvem Branca. O Sol castigou sua face, até que alcançou a aldeia de um único índio, protegida por milenares jequitibás.

“Uma mulher”, afirmou Nuvem Branca, apontando para o peito de Don Miguel, que ficou curioso com o início da frase do índio. “O teu coração chora. O que é isso, Miguel?”, fitou o índio. “És experiente, vivido, docente. Mas teu coração guarda mágoas. E não é a perda do irmão. É sentimento congelado nesta uma mulher.” Silenciou-se e tragou um cachimbo longo. Observou a fumaça subir. “O oráculo está correto”. Alinhou a coluna. Questionado se seria possível sair da floresta escura e desconhecida que guardava os medos e as mágoas de todas as pessoas, o índio afirmou positivamente. “O Grande Espírito vem e leva toda a tristeza. Mas ele não pode fazer isso sozinho. Você precisa permiti-lo levar essas coisas ruins”, disse, olhando com satisfação o desenho da ave que ganhara de Don Miguel. “Toda vez que essa Cristina visitar tua mente, acende-a”, mostrou uma vela branca, entregando-a a ele, “e caminhe, de lá para cá”, apontou do leste para o oeste, “vá de um ponto ao outro”, sinalizou o caminho novamente, “e quando alcançar a outra ponta, se a vela estiver acessa, a mulher será esquecida de sua memória.”

De volta à cabana, ele encarou a vela em suas mãos e inspirou profundamente. Escolheu uma área aberta, não longe do abrigo, pois, segundo Nuvem Branca, o Grande Espírito deveria testemunhar o rito. Do leste mais ermo em que pôde posicionar-se, próximo de uma ladeira, Miguel deu passos lentos. Um após o outro, o horizonte mudava, cercado por vegetação. A chama balançava frágil. “Cristina”, pensou após julgar ter caminhado por um longo trajeto, “você me dando problemas mais uma vez”, resmungou.

A chama se apagou.

Bufou e voltou ao ponto inicial, que ficou distante. Olhou para as nuvens e tentou imaginar a vigilância do Grande Espírito. Coçou o pescoço, esperou o vento acalmar. Acendeu a vela novamente. Dessa vez ele vigiou o espaço, cruzou alguns arbustos e cedros, uma fonte de água e lenhas abandonadas, até que se lembrou da noite na qual Cristina e ele se beijaram pela primeira vez.

A chama se apagou.

Sentou-se no chão, cansado. Ainda era dia, apesar da atmosfera vesperal. Cobrou-se pelo seu projeto de retiro – refletir sobre a caridade –, lembrou-se do oráculo, pensou no índio e esqueceu-se do rabino. Suspirou e arriscou logo a terceira tentativa. “Eu deveria ter falado para Cristina que ela se interessava mais no que poderia ganhar comigo ao invés de compartilhar uma vida conjugal!”, disse em voz alta, seguido por um vento forte e intimidador.

A noite chegou e Don Miguel não alcançou o Oeste antes que a chama se apagasse. Caiu deitado no jardim, ao lado da cabana. Mesmo frio, ali ficou. Semicerrou os olhos e tentou imaginar um passado onde Cristina e ele não tivessem se conhecido durante as férias no litoral da Normandia. Suspirou e deixou a mente repousar. Dormiu.

Uma águia gritou longe e, apesar da distância, Miguel a ouviu quando acordou debaixo de neblina. “Rabino Joseph…”, disse para si mesmo. A garganta gelada por conta da geada noturna e as mãos duras e trêmulas o despertaram com rapidez. Na cabana, banhou-se com água aquecida, comeu pão e recordou-se das últimas palavras do índio antes de partir para a última visita: “Passar de um estado para o outro exige mudança das coisas que não importam, mas, ao mesmo tempo, permanência das coisas que importam. Quem ficará no passado? Ela ou você?”

Pegou todos seus pertences, trancou a cabana e partiu em direção ao Templo dos Ancestrais, onde morava o rabino Joseph. Era um lugar grandioso, ao mesmo tempo escuro, cheio de sombras. O portal majestoso resplandecia palavras em ugarítico gravadas em suas extremidades. Não podia ver muito bem o fim do corredor longo e escuro. Sentiu calafrios. Segurou no colar com uma pena de águia. Forçou a vista. Ascendeu a vela que ganhara do índio, iluminou o espaço e caminhou. O corredor interminável dava acesso à nave do templo. A escuridão aumentava conforme ele avançava. Viu bancos velhos, vitrais cobertos por panos, poeira no chão e nas esculturas. O templo possuía algumas entradas e ele entrou pela mais incomum. Demorou para alcançar a área principal. Fez barulhos tentando abrir uma porta antiga e o rabino o ouviu. Chamou-o pela fresta acima do altar. Indicou-lhe outra porta, bem pequena, mas fácil de abrir.

“Ninguém vai lá embaixo mais”, disse o rabino, sugerindo uma poltrona para Don Miguel. O rabino era alto, forte e trajava uma camiseta preta. “Como sua vela não se apagou?”, perguntou admirado. Don Miguel não percebeu, mas a vela ainda estava acessa em sua mão. “Há rajadas de ar fortes naqueles passadiços do Templo dos Ancestrais”. Don Miguel perguntou o comprimento do corredor e do templo e o rabino respondeu desconhecer a mensuração exata, mas que se tratava de uma área consideravelmente grande. “É tão distante que a extremidade da qual você veio vai, simbolicamente, do Leste ao Oeste”, sinalizou com o indicador, “é a direção do caminho do exílio judaico por estas terras”. Don Miguel desviou a face em direção ao templo e, antes que pudesse alcançar lembranças de Cristina, o rabino continuou: “Você gosta de pão Challah? Eu fiz alguns hoje de manhã. Há quanto tempo não nos vemos, Don Miguel? Pelo menos desde o fim da guerra, não?”

O Rabino serviu pão e vinho. Don Miguel demorou para contar a angústia dos últimos dias.

“Ah, a guerra…”, exclamou o rabino com os olhos voltados para o alto. “Você sabia que eu servi o exército, não? Foi uma época muito difícil para mim. Eu estava dividido, num dilema existencial. Por um lado, a minha vocação religiosa. Por outro, o meu dever cívico”. Fez silêncio e Don Miguel saboreou o pão judaico. “Eu pedia a Deus apenas por uma única coisa: que eu nunca tirasse a vida de um ser humano. Então, tomei a decisão de ser piloto. Pensei que sendo piloto eu não iria para o combate, apenas transportaria soldados e suplementos. Mas, numa manhã, não me lembro o dia exatamente, fui encarregado de bombardear uma cidade inimiga, na divisa do país. Eu entrei em desespero. Um colega me convenceu que o responsável pela ação seria o comandante, a quem eu obedecia ordens. Contra a minha índole, voei em direção à pequena cidade para lançar a poderosa bomba. Mal sabia eu, muito menos meus superiores, que acontecia um casamento civil naquela cidade. Não havia exército nem militares! O alvo era errado! Durante o trajeto, antes de alcançar o meu destino, eu tive cólica: uma dor de barriga forte, tão forte, que eu não resisti e abandonei a missão, sabendo dos riscos que eu correria. E vou te dizer: o maior alívio não foi ter ido ao banheiro e nem ser punido pela minha decisão, mas saber que o alvo estava errado e ninguém havia morrido, Don Miguel. Ninguém morreu! Moral da história: às vezes o intestino é mais inteligente que o cérebro!”

A satisfação na face do rabino contagiava Don Miguel à medida que conversavam. Relembraram os velhos tempos universitários, onde compartilhavam cafés noturnos com o mesmo tutor.

“Existem certas coisas impossíveis de se controlar, Don Miguel. Mas, quando colocamos a nossa vida a serviço do bem, quando temos intuições boas, até mesmo aquilo que não controlamos promove situações boas”, prosseguiu o rabino após ouvir sobre a inquietação de Don Miguel e servir vinho ao amigo.

“Sabe, a guerra e os amores me fizeram pensar sobre os limites da condição humana. Creio que o dilema mais corriqueiro e igualmente importante da vida é a liberdade. Eu te ofereci água ou vinho. Você é livre para escolher. Porém, no momento em que optou por beber vinho, você está limitado, ou destinado, a beber vinho. Onde está a tua liberdade? Toda escolha é livre, mas implica em compromisso e responsabilidade. Quem constrói o destino é o próprio ser humano em sua liberdade. Quem confunde os limites oriundos das escolhas com falta de liberdade é quem não sabe ser livre, nem sabe escolher”, inferiu o rabino.

Don Miguel aproveitou as reflexões de Joseph e trouxe para a conversa a sua inquietação acerca do relacionamento que havia deixado marcas.

“Essa tua inquietude tem a ver com a nossa conversa”, reagiu à história de Don Miguel. “Certa vez, quando eu era jovem, eu tive uma experiência que me ensinou sobre a liberdade. Naquela época, eu não queria saber de religião e tinha perdido o interesse na fé. Queria ser livre completamente. Eu estava noivo de uma linda mulher. O meu pai nos apresentou em uma festa de ano novo judaico. Ela e eu planejávamos morar juntos à beira do rio do vale. O meu pai brincava contando as horas em seu relógio de ponteiros de pulso para ver a celebração matrimonial. Ele gostava muito dela.”

Fez uma pausa, bebeu um pouco de vinho. Don Miguel sentiu peso nas palavras do amigo.

“Alguns dias antes da cerimônia, o meu pai faleceu. Ele foi assassinado em um assalto mal anunciado. O assassino nunca foi identificado. Não gosto de pensar nos detalhes desta história. Desculpe. Eu entrei numa profunda tristeza a ponto de minha noiva e eu adiarmos o casamento. Relutei em aceitar a morte dele. Após algumas estações, o sentimento ficou mais leve e, quando eu estava pronto para remarcar o casamento, minha noiva ficou grávida. O dia em que soubemos da gravidez foi a primeira vez após a morte do meu pai que eu voltei a sorrir de verdade. Nós nos preparamos e senti um novo momento em minha vida. Porém, no nascimento da minha filha, outra tragédia: a minha noiva não suportou o parto e faleceu. A dor da perda do meu pai voltou naquele instante. Era como se o dia mais triste da minha vida não tivesse terminado. Perdi o meu pai e a minha amada, um após o outro. Não importa se havia um intervalo longo entre as duas fatalidades. O amor não conhece o tempo. Foi o pior período da minha vida”, apoiou os cotovelos nos joelhos, mãos unidas. “Bem, onde entra a liberdade?”, questionou seguido de silêncio. “Na noite em que a minha noiva faleceu, após lidar com a notícia e saber que a minha filha dormia segura com os cuidados médicos, eu estava deitado na cama do hospital, em profunda indignação. Eu precisava aprender a viver novamente. Mas, como? Questionei Deus com todos os Seus nomes, perguntei pelo propósito da minha vida, revoltei-me com toda e qualquer possibilidade do sagrado. Ao mesmo tempo, pedi um sinal de vida. Curioso isso, não? Quando estamos numa situação limite, extrapolamos todos os sentidos que conhecemos. Apesar dos meus estudos e do meu conhecimento científico, desejei, ingenuamente, que a vida pudesse ter um botão onde pararíamos o tempo, voltaríamos atrás e não sairíamos mais dos momentos alegres. Eis então”, inclinou-se para frente, “que algo extraordinário aconteceu”, fitou Don Miguel nos olhos.

Don Miguel ainda não tinha acabado de saborear seu pão quando ouviu a declaração do rabino:

“Naquele dia no hospital, deitado na cama, no momento mais dolorido, eu ouvi o som dos ponteiros do relógio do meu pai.”

Don Miguel parou de mastigar e alisou a barba.

“Era o som do relógio do meu pai, ao meu lado, eu sei, o mesmo em que contávamos os dias para o casamento. O seu relógio de ponteiros de pulso! Você pode duvidar, mas o som era real. E naquele momento eu entrei num estado de paz como eu nunca havia imaginado conseguir alcançar, ainda mais depois de tais perdas. Senti a mesma sensação boa dos momentos felizes que eu tive com o meu pai. Aquilo me confortou profundamente e me deu força para estar onde eu estou hoje.”

Sem querer desviar o assunto, Don Miguel perguntou onde entraria o problema da liberdade.

“Ouve o vento?”, indagou o rabino, apontando para cima. “O vento está no lugar natural dele. Assim como o vento, nós temos alguns lugares e algumas tarefas na vida. O vento existe quando ele venta. Ele pode estar destinado a ventar. Mas, ele é livre para onde vai soprar. Quando ele sopra para a direção que quer apesar dos obstáculos, ele venta que faz assovios! Ouça o assovio de felicidade dele”, e longe um fino ruído ecoou pela sala. “A vida é movimento, como o vento, caro Don Miguel. Nada morre na véspera. Eu aprendi que para tudo há um sentido que atravessa o tempo. Eu não poderia escapar do meu lugar e da minha tarefa. Quanto mais eu me distanciava de mim mesmo, mais os eventos da minha vida me traziam de volta para o meu caminho. Já pensou quantos pais ou quantas noivas eu teria matado se eu tivesse relutado com o meu intestino durante a guerra e bombardeado a cidade?”, interpelou, tomando o último gole do vinho.

Uma brisa de vento quente e macio tocou o ouvido de Don Miguel. Ela o lembrou das manhãs colegiais, quando, certa vez, fez companhia a um professor de matemática após o acidente da filha dele. O professor se fragilizou diante da tragédia, enquanto Don Miguel, mesmo jovem, esteve ao lado do mestre e o confortou.

O rabino, ao ver Don Miguel pensativo, não sabia se havia ajudado o amigo ou se o fizera perder-se em suas reflexões. Mas conhecia o brilho por detrás do olhar descoberto do passado. O rabino ergueu as mãos, Don Miguel juntou suas mãos às dele.

“Vá em paz, Don Miguel”, saudou o rabino, servindo-se de outro pedaço de pão e cantarolando um hino.

Don Miguel se retirou do Templo dos Ancestrais em direção à floresta com a bolsa cheia de pães ázimos que ganhara do rabino e os pensamentos balsamados. Reencontrou Nuvem Branca e o presenteou com o colar com uma pena de águia e um pão. O índio, apaixonado por aves, agradeceu-lhe em silêncio imanente. Don Miguel voltou ao oráculo com a vela na mão. A senhora estava pronta para repousar quando recebeu Don Miguel. “Você está mais leve? Eu acho que sim”, disse, reluzente, ao ganhar um pão e a vela, que não completaria o candelabro trinitário, mas, pelo menos, traria uma segunda luz ao ambiente de trabalho.

Num átimo de redenção, Don Miguel regressou à sua cidade. Naquele instante, sentiu-se vazio e, ao mesmo tempo, feliz. Procurou o mendigo, na rua de seu ofício, para quem gostaria de ofertar alguns dos pães que ganhara de Joseph. O mendigo não se encontrava na costumeira esquina. Don Miguel esperou. Pessoas e bondes passaram. Em passos lentos, dirigiu-se à universidade. Muitos fugiam da ventania e dos trovões. Ele não se apressou. Na cidade cinza Don Miguel enxergava palavras; nos e ruídos urbanos, ideias.

Calmamente, adentrou o campus. Sentou-se no auditório, espalhou livros, anotações e pães pela mesa. “Comam”, disse sorrindo pela primeira vez. Os alunos estranharam o sorriso do professor. Aproximaram-se, serviram-se de pedaços de pão. Sugeriu que preenchessem as cadeiras ao redor da mesa do professor. “Hoje fechem os livros.” Olhou para cima. “Ao invés de teorias e ideias, contarei uma história.” Os alunos fizeram silêncio. “Uma história de paixão de um homem que uma vez amou e deixou de amar.” Um rapaz elevou a mão ao queixo, uma moça semicerrou os olhos. “Mas, mesmo na profundeza da solidão e da descrença, ele foi intercedido pela providência divina e voltou a sorrir.” Os alunos sentiram uma mudança no repudiado mestre. Não sabiam precisar a transformação, mas perceberam que o professor, pela primeira vez, estava sem o colar com uma pena de águia.

Este foi o terceiro dia.