Tentação no Deserto

2012-07-04-19.53.37

Ele colocava café numa xícara quando eu entrei na sala. As pessoas e o falatório não me impediram de vê-lo, sozinho, olhos baixos, rodando a colher no café e soprando o calor da xícara. Aproximei-me e cumprimentei-o. Ele olhou com aquela expressão desconfiada de sempre. Sorriu ao me ver. Abraçou-me com um braço, o outro segurava a xícara. Perguntei se ele estava bem. Sua esposa mostrou-me algumas irritações alérgicas no pescoço dele e sugeriu que fosse ao hospital.

“Eu já fui muito em hospital nestes últimos dias”, reclamou.

Bebia seu café aos pouquinhos e fitava o nada. Virou e perguntou-me se poderíamos ter um grupo para conversas e debates informais, como aquelas discussões de rua em Curitiba, onde cada um expunha seus pensamentos, falavam o que pensavam e confrontavam-se em respeito mútuo. Animei-me e logo concordei. Ele era um senhor dedicado e disposto para questões inquietantes.

“Sabe, desde que li pela primeira vez aquela passagem na qual Jesus transformara água em vinho, aquilo me deixou encafifado”, disse-me.

Como não poderia ficar? O milagre surpreendera a todos no relato bíblico. Difícil seria discutir sobre a veracidade do milagre, pensei racionalmente.

Ele prosseguiu: “Aí chegou um camarada e disse lá na estória, ‘Então, vocês nos enganaram e guardaram o melhor vinho, dando-nos apenas o vinho vagabundo durante a festa’; tenho a impressão de que esta malandragem está na natureza humana”, gesticulou meticulosamente as palavras junto com as mãos, “o ser humano nunca muda”.

Percebi. O que lhe incomodava não era a verossimilhança do milagre, mas o comportamento humano.

“Veja estes nossos políticos; acabaram de aumentar absurdamente os próprios salários e criaram um novo imposto. E o que podemos fazer em relação a isto? Pegar uma espada e sair cortando cabeças? Ou sermos apenas coniventes? Parece que é da natureza do ser humano enganar os outros e só se preocupar com as coisas próprias”.

Ele abaixou os olhos e tomou o restante do café.