Castelos Tropicais

Duas pessoas se encontram. O despertar começa na jornada e a jornada começa no diálogo. Ana Maia conhece Bernardo e se reconhece em Bernardo. Seria ele o espelho dela? A cada conto, um passo no mundo; no conto seguinte, um passo na jornada interior. A genialidade poética envolve vida e pensamento de tal modo que a reflexão é a tarefa dos andarilhos. Budapeste se torna no recanto meditativo: o espaço aberto para a emancipação da menor boneca russa. Uma lição de auto-conhecimento. Em profundidade poética:

Já cumpri tantos fatos”, diz a narradora, “percorri diferentes veredas, no meu microcosmos desempenhei o que o universo parecia esperar de mim. Testei algumas mulheres em minha pele, uma de cada vez, procurando aquela que sentisse mais à vontade. Completei-me em alguns ciclos, fui sempre com intensidade nas paixões, nos trabalhos, nos projetos. Tive ambições, fiquei um pouco cega mas não desumana. Conheci lugares, sabores e culturas. Testei a neve e o fundo do oceano. Às pressas, cumpri as ideias rotuladas para…? Para me aposentar de mim mesma! Ofegante, completei a maratona para ter a chance de voltar a trilhar do início o que eu sempre quis“. (p. 87)

A leveza da narrativa de Clara Baccarin lembrou-me das palavras de Van Gogh: “Eu prefiro retratar os olhos das pessoas a catedrais, pois há algo nos olhos que não está nas catedrais. A autora conseguiu traduzir, com um estilo próprio, dona de uma síntese singular, a essência do olhar feminino. A leitura faz-se envolvente pois não se trata de um olhar qualquer, mas o olhar de uma mulher especial — palavras doces que tocam o íntimo –, mulher de coragem delicada, mulher de escolha descoberta, mulher que descostura as bordas da alma. O título do romance anuncia castelos, entretanto, certamente, dentro deste castelo estão os retratos dos olhos de duas personagens que, inquietas, incansáveis e insatisfeitas, entenderam que a vida pede, acima de qualquer viagem, por relacionamentos. Apesar das dificuldades, o relacionamento ideal, na ordem dos contos, termina no amor, uma vez que ele próprio é a verdadeira viagem.

Duas poesias chamadas Ana Maia e Bernardo se encontraram. Deste encontro, nasceu uma narrativa que construiu castelos tropicais.

BACCARIN, Clara. Castelos Tropicais. Lisboa: Chiado Editora, 2015, 124p.