A Chegada

A natureza da luz diária. É porque o Sol se levanta; faz-se o dia. Revelação cíclica. A luz de uma parte proporciona o todo. É possível comunicar o todo de uma vida? O que foi, o que é, o que será. Como, se o dia de ontem não é o de hoje? Mas eu também sou o de ontem — serei o de amanhã? Há algo que eu não posso dizer; não porque eu não queira, mas porque não cabe na linguagem. Poderei transmitir ao outro os meus sentimentos? As minhas palavras lançam luz. Quem iluminarei? Difícil tarefa da recepção e interpretação. Um círculo pode representar infinitas representações. A sensibilidade de quem o vê dirá o que ele é. Arma ou ferramenta? Comunhão ou desavença? Não há natureza na linguagem. Pode-se dizer — e construir — qualquer coisa que caber na palavra. O conflito não resolve o texto. Apenas uma força é capaz de levar à compreensão. O amor é a linguagem por excelência. O amor dá sentido ao começo e ao fim. A cada cena um desdobramento de si mesmo em direção à união do que foi e será. O amor remove as fronteiras do ontem e do amanhã. Entrelaçamento da palavra dita com o mundo da vida. Banhados pela linguagem do amor, a vida vai e vem, sobe e desce, conhece e esquece, deseja e despede, com um único propósito: a luz da palavra uma vez dita no nascer do Sol. Ao final — há final? — uma narrativa, um palíndromo. “Ao final de nossa caminhada chegaremos ao ponto de partida e então conheceremos esse lugar pela primeira vez”. (T. S. Eliot)