A singularidade de Cristo

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Cristo Crucificado (Diego Velázquez)

A ironia de Cristo é sua singularidade: só pôde existir um. Ao mesmo tempo, é a nossa salvação: pois somos um – no sentido de identidade – e únicos – no sentido de singularidade. É extremamente raro, num mundo assombrado pelo ego, encontrar uma pessoa com a sensibilidade do Cristo: o repartir por um bem maior, o cuidar pelo amor, o desapego de partidos e de grupos tendo como único interesse o próprio indivíduo – tanto o si-mesmo como o outro. Ingenuidade sem medida objetivar Cristo para todo e qualquer projeto social. Cristo não é geral. A sua singularidade toca indivíduos ao invés de contemplar grupos. O interesse do grupo recai na imagem do ídolo enquanto força motriz de uma intenção subterrânea. Todo plano comunitário e social que fala por Cristo permite a falácia da soberania do grupo sobre o indivíduo e quebra-se na intenção escura do ego. Por outro lado, a singularidade, ao assumir o espaço da totalidade, demonstra-se igualmente justa e irônica na tensão entre o dever e o devir. Pois não há redenção social, parcial ou total, se não houver um início de singularidade exemplar – a singularidade de Cristo. O singular é o caminho autêntico diante da face obscura do egoísmo e da falácia da soberania do comunitário. Projetos políticos partem do todo para a parte; Jesus parte da parte para o todo. Cristo é a esperança da reconstituição do humano e salvação para a convivência social, mas sem curvar diante dos movimentos que buscam isolá-lo numa única faceta da sociedade.