Literatura

A Fumaça e o Escuro

Quando Deus criou o mundo, o seu objeto de criação se tornou no sujeito da relação. O mundo é relacionamento e sua órbita cria eclipses que doam sentido aos movimentos da vida. O convívio familiar, os problemas no trabalho, a vida comunitária, a representação religiosa no imaginário coletivo, o trabalho do professor com o aluno, o atrito do filho com o pai, as histórias de amor, a felicidade do beijo, a realização do sexo... Muitos exemplos, dos quais posso desviar. A saber, um dos raros movimentos presente no cotidiano é o reconhecimento. Ora, gesto rotineiro, mas abandonado e esquecido por quem se coloca num relacionamento. Estar com alguém faz parte do autoconhecimento, do conhecimento de si mesmo. Relacionar-se com alguém é ter o reconhecimento de si intermediado por esse alguém e pelo momento único que configura o encontro. “Diga-me com quem tu andas que te direi quem és”, fala o ditado popular. O outro é o nosso espelho, de modo que vemos um pouco de nós no outro. A relação entre duas pessoas acorda silenciosamente, onde o outro é incluído em um mundo comum. Sem que nos demos conta, o outro já preenche a dura camada rotineira no movimento orbital do reconhecimento. Neste preenchimento, há dois caminhos distintos pelos quais é possível trilhar: estar com alguém por querer conhecer-se melhor ou estar com alguém pelo medo, pela fraqueza ou pela fuga do conhecer-se melhor.

Toda relação implica em um ato corajoso de ser. Se alguém nos falha a lealdade, mesmo sob o pretexto do elogio e da bondade a qual eles alegam sustentar, devemos saber que o convívio com tal pessoa tornar-se-á embaçado, turvo, roco, enfadonho. Pois vivemos para aprender e, assim sendo, os relacionamentos formam os aprendizados mais originais – e divinos – que a vida pode nos proporcionar. Deles não podemos escapar, nem mesmo se nos tornarmos eremitas e ermitões, isolados no cimo de uma montanha ou em um mosteiro silencioso: mesmo assim, agimos em reação ao outro, respondendo em retidão e obstinação total para evitá-lo. Se correspondo aos desafios do relacionamento enclausurando-me, qual o mérito de minhas ações? Relacionamentos, novamente, são aprendizados; e o desafio de viver consiste em compreender as lições que deles advêm.

De fato, não podemos escapar de nós mesmos. O relacionamento reflete aquilo que está no prefácio do desafio de cada indivíduo. Evitar-se, em primeiro lugar, é o maior dos pecados – o pecado capital esquecido. O ato corajoso no aprendizado supera a queda da acídia. Dos sete pecados capitais, a acídia – substituída pela preguiça, ao longo dos anos de capitalismo – assombra as relações dispostas ao aprendizado. Trata-se da tristeza e a fumaça que queima no interior, no escuro da alma, quando não se alcança a altura para a qual se é chamado na vida, tanto na esfera humana quanto na espiritual. Há, no devir de cada indivíduo, um bem inigualável, reservado por Deus no mistério do eclipse da criação. Tal bem edifica a filiação divina do indivíduo consigo mesmo, se assumido na difícil tarefa do reconhecimento. A passagem do tempo e a deterioração prefere a comodidade, a facilidade. O abandono de si causa inquietação e confusão no íntimo reservado diante de qualquer relacionamento. Desespero, barulho, discussão, queimação e tristeza. A angústia de quem não realiza suas faculdades mais belas faz escapar o aprendizado colocado em questão. Pois, justamente pela complexidade do aprendizado imanente, o milagre é quando aprendemos algo que Deus quer nos ensinar.

É deveras comum o desvio dos aprendizados implícitos nas relações que cruzaram caminhos individuais. A pessoa no pecado da acídia deseja, acima de tudo, aproveitar-se dos outros, tirar algo do outro em benefício de si própria, ganhar alguma coisa do outro que a fará contente e confortável, em suma, um gesto voluntário que a afasta do desafio involuntário da graça do aprendizado. Afinal, se não houver este proveito, para ela, a relação não valeria a pena, uma vez que aproveitar-se é o único caminho, de modo que o outro, caso negue esse proveito alheio, tornar-se-ia uma pessoa chata, incompreensível ou inoportuna – ao contrário, tal pessoa é apenas alguém que aproxima o outro do desafio involuntário. Aquele que evita o chamado existencial coloca-se no preenchimento da vida em esferas desesperadas – vícios, drogas, sexo desenfreado etc. – como um remédio para acalmar as inquietações profundas da alma, na tentativa de livrar-se da angústia. Compra-se o outro, compra-se qualquer saída temporária e imediata. O atrito surge no silêncio da noite, repetidamente, até que seja possível o despertar, assim como o Sol repetidamente se levanta para trazer uma nova oportunidade diária. Aqueles que não se deixam interpelar pelos raios do Sol, entregam-se aos riscos do sono que, do mesmo jeito que leva trabalhadores aos sonhos, pode levar os preguiçosos aos pesadelos.

Ainda, se a energia dos bons é invejada por quem foi tomado pela acídia, pelos incompetentes, por aqueles que não acreditam em si mesmos ou não possuem a coragem de ser, qual a vantagem, ou melhor, qual o aprendizado da pessoa que se dispõe a viver em um relacionamento nessas circunstâncias adversas? Se a pessoa cujas motivações são boas já reconhecem na amizade ou no relacionamento apenas desgaste e desvio de seu centro, se essas coisas já lhe forem conscientes, pois bem, nada de novo ele poderá aprender, a não ser que a repetição, nesses termos, é prejudicial. Se, por outro lado, as pessoas em relação desejarem e aspirarem à mudança mútua, em seu âmago, o reconhecimento é verdadeiro e possível. Se uma destas pessoas se aproveita do outro, sob o título de amigo, família ou cônjuge, estaria essa pessoa fazendo um bem a si mesma e ao outro? Se ela se apoia em pessoas bem intencionadas para esconder seus medos, suas fraquezas e suas inseguranças, como um guardião que esconde os preciosos tesouros, logo ela faltaria com respeito e amor consigo própria e com o próximo. Os relacionamentos locados na acídia são como areias movediças da existência individual. É fundamental haver troca de energia, alegria e dom, senão a relação cairá no limbo existencial, no coma do novo ser, na véspera do funeral; já que nem um nem o outro rompeu com a acídia e se negou a conhecer a si mesmo.

O filósofo Immanuel Kant se perguntou: “O que eu posso saber? O que eu devo fazer? O que me é permitido esperar?” A primeira questão, o que eu posso saber?, poderia ser traduzida em: o que eu tenho que aprender com isso? A despeito das motivações filosóficas, do prestígio do conhecimento puro, todo relacionamento nos ensina algo, até mesmo quando tocamos as fronteiras da cognição e não compreendemos a presença de um amigo ou a ausência da mulher amada. Se podemos aprender que nada morre na véspera, podemos aceitar o bem de um amigo como também rejeitar a repleção de um problema. “O que posso saber?” é o primeiro estágio do reconhecimento e abandono da acídia. O aprendizado da sabedoria situa-se além da circunstância para eventos futuros.

Aqui, o sábio se perguntará: o que eu devo fazer? A pergunta implica na resposta da primeira: querer saber o que a vida quer lhe ensinar. Alguém pode ter dificuldades a respeito de autoridade com seu pai. Se essa pessoa não cuidar deste tema e não realizar uma mudança interior, encontrará o mesmo problema em outra pessoa no futuro – sob a forma de desafio ampliado – um patrão? um tio? um sogro? “Por que continuo a repetir o mesmo problema em minha vida?”, perguntar-se-á a pessoa sincera, em algum momento do despertar. Se um homem não resolver os sentimentos maternos mal processados, poderá ter uma esposa com os mesmos incômodos. Se uma pessoa não impor limites no seu espaço em resposta à invasão de um irmão, provavelmente terá a mesma resistência com um amigo no futuro. Pois não foi exercida a mudança reservada no destino. Enquanto não aprendemos o caminho do nosso devir, estaremos fadados à repetição do erro. Não por condenação, predestinação ou karma, mas por uma infinita “segunda chance” que nos é dada gratuitamente – em nosso interior mais íntimo, em nossa relação com Deus. É devido à insistência na acídia que fazemos das repetições uma vida insuportável.

Sabendo disso, então, o que eu devo esperar? Uma vez que eu tenha mudado minha posição na vida, evitando a acídia, afastando as relações obsoletas e incorporando as vivências positivas, poderei esperar pelo mais aconselhável, mais adequado, mais certo, mais razoável e mais sensato acontecimento. Neste sentido, no percurso da confiança, o que devemos esperar é justamente a manifestação de algo admirável pelo ato corajoso da aceitação do bem que Deus separou para o reconhecimento. Quem não deseja aprender, quem escolhe temer, quem dá um passo em direção ao medo, coloca-se entre a fumaça e o escuro – coloca-se no isolamento que ofusca e sufoca. Mas, ao aprendiz, feitor do bem, perseguidor da filiação divina cujo fim é a realização pessoal das potencialidades à qual está chamado, a revelação instaura uma nova atmosfera. Revelação é justamente quando encontramos algo significativo que não poderia ser diferente daquilo que nos foi manifestado. A rigor, uma vida que presenciou ou vivenciou algo imprevisto, que se tornou especial, é uma vida interpelada em equilíbrio pelos dois planos da existência: o que é conhecido e o que é desconhecido. No entanto, para o abandono da acídia acontecer, precisa-se de fé e a coragem de ser.

A esse respeito, é salutar a importância de estar com alguém que nos ajude a conhecer a nós mesmos. No processo de convívio diário, encontramos desafios, contratempos, dificuldades, empecilhos, objeções ou adversidades, mas também alegrias, bem-estar, entusiasmo e satisfação. Se ao invés de atentarmos a essas sensações, que são o resultado involuntário dos acontecimentos, formos atentos e cuidarmos de nossas ações, seguramente teremos mais consciência de nosso papel no movimento do reconhecimento pelo qual as coisas se transformam. Em suma, Deus não se importa com o que acontece conosco: importa-se com a resposta que damos a determinado desafio ou dificuldade.

Por que é mais importante a nossa resposta ao invés dos eventos e acontecimentos? Se formos capazes de reagir positivamente, independente do caráter dos eventos, a nossa resposta, isto é, a nossa ação voluntária, ampliará o mundo além do esperado, ou seja, determinará todas as demais esferas involuntárias. Se estivermos com alguém que, no processo do reconhecimento, responde diferentemente de nós – a despeito da característica individual de cada um –, que responde com pessimismo ou desconfiança, estaremos distantes de quem somos ou de quem poderíamos ser. Sobretudo se a pessoa, na esfera voluntária, se entregar à acídia, de modo que as virtudes humanas se tornem ofuscadas ou esquecidas. Um relacionamento é sempre, nesse sentido, um futuro em potencial, uma vez que ambos olham para o mesmo horizonte e buscam possibilidades em comum. Penso, para ilustrar tal dilema, em estágios. Uma resposta, conivente ou inconivente, implicará em um comportamento e, principalmente, na consequência de um evento. Pensar em estágios é colocar a ação em função nobre, isto é, saber que a resposta pode nos levar a habitar estágios mais elevados da alma ou a habitar estágios antigos entre a fumaça e o escuro. Uma pessoa, em suas razões, mantem-se ligada à outra, pois algo nessa outra lhe interessa: dinheiro? status? conforto? abrigo? carinho? barganha? ego? Há inúmeras razões. O motivo só será nobre – e, por que não, divino? – se ele apontar para o elemento mais essencial da vida; se ele indicar o caminho de novidade; se ele escolher a passagem que levará a pessoa ao mais profundo questionamento e sentido do seu ser. Alguns chamam este fim de Deus, outros de ser supremo, realidade última, incondicionado, ser em si, ou qualquer outra forma ou nome possível de nomear. O que está em questão, e que escapa a muitos, é: um relacionamento verdadeiro só tem um único interesse: ajudar o outro a ser ele mesmo conforme nos ajudamos a ser nós mesmos. As semelhanças são notórias para quem conhece o Evangelho: “amai-vos uns aos outros como a si mesmos”. Este é o ponto alto e feliz de todo relacionamento e de toda posição social. Não por acaso disse Miguel de Unamuno: “Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.” A amizade é, portanto, uma luta contra a acídia, um sinal incondicional no processo do reconhecimento.

Enganar-se-ia quem inferir egoísmo, individualismo ou cinismo nestas reflexões. A alma antiga conhece a dificuldade do reconhecimento e sua incompatibilidade com os espíritos rameiros, aproveitadores e ardilosos rubricados nas fissuras da acídia. Eu poderei ajudar a quem me quer bem, pois ao me desejar o bem a pessoa antes de tudo deseja o bem a si mesma. O contrário também é verdadeiro: como poderei ajudar alguém se eu não me desejo o bem? Se eu não me ajudar, eu estarei fugindo de mim mesmo. Quem cruzar meu caminho, ao invés de ter o seu reconhecimento aflorado, será testemunha da minha fuga e sofrerá o atrito desnecessário do distanciar-se de si por conta do erro do outro – no caso, o meu erro. Estarei vulnerável a todo e qualquer abuso perverso da existência quando eu buscar nos desvios a calma para o desespero e da angústia da alma. Porém, se procuro o melhor, para mim e, consequentemente, para o outro, não tolerarei nem permitirei a acídia, nenhuma relação aborrecida, descontente ou insatisfeita; vampiresca, sugadora ou usurpadora. “Você é mais do que isso”, direi a quem se presta a tal violação, a começar por mim mesmo. Se tiverem olhos preparados, verão quão pequena é a resposta da fuga – que incansavelmente atribui ao outro a responsabilidade das emoções e consequências involuntárias.

O meu papel, como de qualquer pessoa no mistério da vida, é atingir a estatura à qual sou chamado; buscar a realização pessoal em face da mediocridade; exercer a tarefa do reconhecimento no percurso da incondicional filiação divina dos aprendizados; em suma, é tornar-me senhor de mim mesmo. Quão pretensioso querer encontrar a felicidade no outro que mal é o senhor dele mesmo. E quanta presunção desejar mudar quem não aspira à mudança. Eu só posso mudar a mim mesmo pela gratuidade do reconhecimento e, no máximo, encantar quem quer ser encantado pelo mistério da vida, inspirar quem inspira a si, conviver com quem assim também se permite conviver: pessoas dispostas a amar e serem amadas porque aprenderam lições fundamentais no convívio com o outro e encontraram um sentido mais profundo diante das imperfeições e fraquezas humanas.

O resto, se não é atrito para o crescimento ou aprendizado inevitável, é sopro do divino.

Três Tempos

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O futuro, quando idealizado,
é um tempo fraco
– não o temos, afinal.

O passado, quando lembrado,
é um tempo raso
– recriamo-lo, sem igual.

O presente, quando acordado,
é um tempo raro
– caminhar, sem final.

Tentação no Deserto

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Ele colocava café numa xícara quando eu entrei na sala. As pessoas e o falatório não me impediram de vê-lo, sozinho, olhos baixos, rodando a colher no café e soprando o calor da xícara. Aproximei-me e cumprimentei-o. Ele olhou com aquela expressão desconfiada de sempre. Sorriu ao me ver. Abraçou-me com um braço, o outro segurava a xícara. Perguntei se ele estava bem. Sua esposa mostrou-me algumas irritações alérgicas no pescoço dele e sugeriu que fosse ao hospital.

“Eu já fui muito em hospital nestes últimos dias”, reclamou.

Bebia seu café aos pouquinhos e fitava o nada. Virou e perguntou-me se poderíamos ter um grupo para conversas e debates informais, como aquelas discussões de rua em Curitiba, onde cada um expunha seus pensamentos, falavam o que pensavam e confrontavam-se em respeito mútuo. Animei-me e logo concordei. Ele era um senhor dedicado e disposto para questões inquietantes.

“Sabe, desde que li pela primeira vez aquela passagem na qual Jesus transformara água em vinho, aquilo me deixou encafifado”, disse-me.

Como não poderia ficar? O milagre surpreendera a todos no relato bíblico. Difícil seria discutir sobre a veracidade do milagre, pensei racionalmente.

Ele prosseguiu: “Aí chegou um camarada e disse lá na estória, ‘Então, vocês nos enganaram e guardaram o melhor vinho, dando-nos apenas o vinho vagabundo durante a festa’; tenho a impressão de que esta malandragem está na natureza humana”, gesticulou meticulosamente as palavras junto com as mãos, “o ser humano nunca muda”.

Percebi. O que lhe incomodava não era a verossimilhança do milagre, mas o comportamento humano.

“Veja estes nossos políticos; acabaram de aumentar absurdamente os próprios salários e criaram um novo imposto. E o que podemos fazer em relação a isto? Pegar uma espada e sair cortando cabeças? Ou sermos apenas coniventes? Parece que é da natureza do ser humano enganar os outros e só se preocupar com as coisas próprias”.

Ele abaixou os olhos e tomou o restante do café.

Dinâmica da Fé

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Incondicional existência
toca-me sem exigência
fé é abertura, e não crença
que desperta nova vivência

Há uma dinâmica na vida
a saber, ela também é crer
Um bem constante
Adeus para poder viver

Ela promove mudança
ação em última pendência
O drama da palavra calma
fé é a preocupação suprema

A fé permite viver, caloroso
o rio que flui dentro de mim
tranquilo e harmonioso
uma beleza sem início e sem fim

Incorpora a ansiedade,
a culpa e talvez o medo
para viver, sem idade,
viver um novo enredo

Fé, posso ter fé
sem saber quem tu és?
E posso saltar
sem saber quem Ele é?

Pois não basta acreditar,
não basta crer
para a fé precisa-se ter
a coragem de ser.

E no Terceiro Dia…

“...resurrexit a mortuis, ascendit ad caelos...”
(Symbolum Apostolicum)

Em meados do início do milênio, Don Miguel, o esquecido reitor da Cidade Universitária, compadeceu-se com um mendigo na rua de seu ofício. Com uma mão deu-lhe uma moeda, com a outra protegeu, do vento, o seu colar com uma pena de águia. Ao contrário de muitos, Don Miguel não desviou a face quando o mendigo fitou seus olhos. Retribuiu o sorriso e caminhou, sozinho, a despeito da sua nobreza local. Mesmo sério e, aparentemente, mau humorado, ostentou a caridade ardente aos seus alunos. “Chegamos ao fundo de nossa própria miséria, portanto reconhecemo-nos e compadecemo-nos, sentimos e consentimos, salvando a alma do sofrimento comum”, proferiu na palestra do dia anterior, antes do retiro de três dias.

Ninguém conhecia os planos do professor, que partiu ao exílio. No primeiro dia, na cabana de madeira cercada por árvores finas no bosque Trianon, entregou-se à escrita. Pensava em grandes questões da filosofia marxista, como a pobreza alheia, e folhas e folhas foram redigidas com uma caligrafia que só ele poderia decifrar. Mesmo vigoroso, de tempo em tempo seus dedos doíam. Descansou a cabeça no encosto da cadeira. Pela primeira vez, em muitas estações vividas, sentiu solidão.

Encolheu-se, estranhou o sentimento, apertou os dedos e manteve os olhos perdidos na lareira. O pescoço doeu e segurou o colar com uma pena de águia. O silêncio incomodava os ouvidos e a solidão apertou sua alma, desta vez mais forte. Algo queimava por dentro. Com essa dor acompanhava a imagem de Cristina e a memória do irmão.

Reviveu na pele os últimos dias de um quase-romance, cujo destino fora desviado pelas indecisões. Cristina o deixou sem opção ao saber que ele estava inseguro com o relacionamento. Brigavam frequentemente. Ele não suportou as cobranças dela e recorreu à solidão flexível, enquanto ela, impaciente, exigiu-lhe uma posição definitiva, da qual ele preferiu abster-se com o propósito de servir a seu próprio devir. A separação inevitável e traumatizante marcou-o com sentimentos inversos e foi agravada pela perda prematura de seu único irmão. O irmão sempre estaria com ele. Mas, ela? Por que Cristina visitava sua consciência no êxodo? Por que, mesmo sabendo que ela deveras lhe provocara dores, alimentava as lembranças ao invés do esquecimento? Evocar a memória causava-lhe um sentimento dúbio de gratidão e de desespero. Nesses instantes, ocupava-se com a leitura. Lia muito, a fim de ater a cabeça entretida.

A leitura não deu conta da sua angústia. Com quem poderia conversar? Lembrou-se de três pessoas na região – um oráculo, um índio e um rabino – e indagou-se se, para evitar aquela estranha sensação, poderia prestar-lhes visitas. A saúde não era mais a de um garoto e sua atividade intelectual estava fatigada.

Decidiu caminhar pelo bosque. Questionou o porquê daquela agonia, sobretudo da tristeza que acompanhava as recordações de Cristina, uma vez que entristecer-se, tão profundamente, não era de sua personalidade. Dia nublado, vento frio e verde na natureza. Sabia que ali próximo, no vilarejo Rouxinol, vivia o oráculo, conhecido pelos seus conselhos aos grandes mestres da região. Julgou prudente o tempo que ainda restava naquela diária para prestar-lhe uma visita antes do entardecer. Imaginou encontrar uma pessoa carismática e afetuosa. De fato, não conhecia sua idade nem sua face, ainda que soubesse quem era a douta pessoa da casa azul e dourada de arquitetura portuguesa.

Após alguns goles de chá e olhares silenciosos, ela, na orada, ajeitou os óculos. “É o teu inconsciente”, disse ela, com as duas mãos envoltas na caneca. “A experiência fica. O corpo carrega as emoções das vivências anteriores”, continuou, perguntando a si mesma por que o colar com uma pena de águia ainda estava no pescoço de Don Miguel – ela sabia que fora um presente de Cristina. “A separação de vocês foi traumatizante, muitas discussões e chantagens, você ficou sozinho por um longo tempo quando foi enviado ao Norte para trabalhar”, prosseguiu, séria. Ele buscava os olhos azuis da senhora por detrás dos óculos finos. “Essas coisas, esses sentimentos vividos, positivos ou negativos, ficam gravados”, continuou. Era uma sala escura. No candelabro de três braços só havia uma vela acesa. “O inconsciente joga essas emoções no momento em que você vivencia uma situação parecida com aquela a qual vivenciou com esta moça. Não é por acaso que atores fazem boas atuações quando já viveram algo semelhante aos papéis deles. Está na carne. O inconsciente traz as mesmas emoções originais e o corpo grita pelos mesmos sintomas, apesar de o tempo ser outro”. Olhou para o alto. Don Miguel desviou a atenção para o teto. “De novo”, disse pausadamente, “você ficou sozinho, longe das coisas e das pessoas de quem mais gosta, uma situação parecida com a do rompimento da relação com Cristina. Na verdade, eu acho que você se sentiu solitário mesmo na presença dela. E agora, que ficou sozinho, lembrou-se dela, de como é não estar consigo mesmo. O inconsciente brincou com você”. Ela fitou a luz branda da única vela. “Muitas vezes precisamos que algo falte para darmos valor às ações e às coisas que foram perdidas. As emoções lá de trás voltaram porque você vivenciou novamente a perda. A perda de você mesmo”. Sorriu singelamente. “Foi isso”, concluiu, com um gole de chá.

Don Miguel ouviu argumentos convincentes que o confortaram no caminho à cabana. Aparentemente, a tarefa se tornou consciente. “Se o oráculo estiver correto”, pensou, “eu só preciso deixar Cristina e seus problemas no passado”. Cabeça baixa, via os próprios passos. Ouvidos longe, não percebeu o canto de uma águia próxima. Apenas o frio o tocou, apressando-o.

Na cabana, experimentou mais uma vez, agora um pouco distante, a saudade de Cristina, que ainda o entristecia. Escrever o fazia lembrar dos passeios noturnos pela famosa avenida da cidade, as danças nos bailes e as caminhadas noturnas pelos parques. Jogou os manuscritos inacabados no canto da mesa e deitou-se na cama de bambu. Fitou a janela, céu estrelado. Rememorou o oráculo dizer, “Você é outra pessoa, Miguel. Ela não é mais quem ela era. C’etáit un coup de feu! Foi um golpe de fogo! Paixão. Não criou amor. Passou. Não durou...” Adormeceu.

No segundo dia, Don Miguel acordou lentamente. Os olhos fixos no teto pareciam não querer fazer ruídos. Uma águia gritou longe. Ainda deitado, disse para si mesmo que deveria ver o índio. Levantou-se, desenhou um pássaro em uma folha média e partiu em direção às margens do rio, onde morava Nuvem Branca. O Sol castigou sua face, até que alcançou a aldeia de um único índio, protegida por milenares jequitibás.

“Uma mulher”, afirmou Nuvem Branca, apontando para o peito de Don Miguel, que ficou curioso com o início da frase do índio. “O teu coração chora. O que é isso, Miguel?”, fitou o índio. “És experiente, vivido, docente. Mas teu coração guarda mágoas. E não é a perda do irmão. É sentimento congelado nesta uma mulher.” Silenciou-se e tragou um cachimbo longo. Observou a fumaça subir. “O oráculo está correto”. Alinhou a coluna. Questionado se seria possível sair da floresta escura e desconhecida que guardava os medos e as mágoas de todas as pessoas, o índio afirmou positivamente. “O Grande Espírito vem e leva toda a tristeza. Mas ele não pode fazer isso sozinho. Você precisa permiti-lo levar essas coisas ruins”, disse, olhando com satisfação o desenho da ave que ganhara de Don Miguel. “Toda vez que essa Cristina visitar tua mente, acende-a”, mostrou uma vela branca, entregando-a a ele, “e caminhe, de lá para cá”, apontou do leste para o oeste, “vá de um ponto ao outro”, sinalizou o caminho novamente, “e quando alcançar a outra ponta, se a vela estiver acessa, a mulher será esquecida de sua memória.”

De volta à cabana, ele encarou a vela em suas mãos e inspirou profundamente. Escolheu uma área aberta, não longe do abrigo, pois, segundo Nuvem Branca, o Grande Espírito deveria testemunhar o rito. Do leste mais ermo em que pôde posicionar-se, próximo de uma ladeira, Miguel deu passos lentos. Um após o outro, o horizonte mudava, cercado por vegetação. A chama balançava frágil. “Cristina”, pensou após julgar ter caminhado por um longo trajeto, “você me dando problemas mais uma vez”, resmungou.

A chama se apagou.

Bufou e voltou ao ponto inicial, que ficou distante. Olhou para as nuvens e tentou imaginar a vigilância do Grande Espírito. Coçou o pescoço, esperou o vento acalmar. Acendeu a vela novamente. Dessa vez ele vigiou o espaço, cruzou alguns arbustos e cedros, uma fonte de água e lenhas abandonadas, até que se lembrou da noite na qual Cristina e ele se beijaram pela primeira vez.

A chama se apagou.

Sentou-se no chão, cansado. Ainda era dia, apesar da atmosfera vesperal. Cobrou-se pelo seu projeto de retiro – refletir sobre a caridade –, lembrou-se do oráculo, pensou no índio e esqueceu-se do rabino. Suspirou e arriscou logo a terceira tentativa. “Eu deveria ter falado para Cristina que ela se interessava mais no que poderia ganhar comigo ao invés de compartilhar uma vida conjugal!”, disse em voz alta, seguido por um vento forte e intimidador.

A noite chegou e Don Miguel não alcançou o Oeste antes que a chama se apagasse. Caiu deitado no jardim, ao lado da cabana. Mesmo frio, ali ficou. Semicerrou os olhos e tentou imaginar um passado onde Cristina e ele não tivessem se conhecido durante as férias no litoral da Normandia. Suspirou e deixou a mente repousar. Dormiu.

Uma águia gritou longe e, apesar da distância, Miguel a ouviu quando acordou debaixo de neblina. “Rabino Joseph...”, disse para si mesmo. A garganta gelada por conta da geada noturna e as mãos duras e trêmulas o despertaram com rapidez. Na cabana, banhou-se com água aquecida, comeu pão e recordou-se das últimas palavras do índio antes de partir para a última visita: “Passar de um estado para o outro exige mudança das coisas que não importam, mas, ao mesmo tempo, permanência das coisas que importam. Quem ficará no passado? Ela ou você?”

Pegou todos seus pertences, trancou a cabana e partiu em direção ao Templo dos Ancestrais, onde morava o rabino Joseph. Era um lugar grandioso, ao mesmo tempo escuro, cheio de sombras. O portal majestoso resplandecia palavras em ugarítico gravadas em suas extremidades. Não podia ver muito bem o fim do corredor longo e escuro. Sentiu calafrios. Segurou no colar com uma pena de águia. Forçou a vista. Ascendeu a vela que ganhara do índio, iluminou o espaço e caminhou. O corredor interminável dava acesso à nave do templo. A escuridão aumentava conforme ele avançava. Viu bancos velhos, vitrais cobertos por panos, poeira no chão e nas esculturas. O templo possuía algumas entradas e ele entrou pela mais incomum. Demorou para alcançar a área principal. Fez barulhos tentando abrir uma porta antiga e o rabino o ouviu. Chamou-o pela fresta acima do altar. Indicou-lhe outra porta, bem pequena, mas fácil de abrir.

“Ninguém vai lá embaixo mais”, disse o rabino, sugerindo uma poltrona para Don Miguel. O rabino era alto, forte e trajava uma camiseta preta. “Como sua vela não se apagou?”, perguntou admirado. Don Miguel não percebeu, mas a vela ainda estava acessa em sua mão. “Há rajadas de ar fortes naqueles passadiços do Templo dos Ancestrais”. Don Miguel perguntou o comprimento do corredor e do templo e o rabino respondeu desconhecer a mensuração exata, mas que se tratava de uma área consideravelmente grande. “É tão distante que a extremidade da qual você veio vai, simbolicamente, do Leste ao Oeste”, sinalizou com o indicador, “é a direção do caminho do exílio judaico por estas terras”. Don Miguel desviou a face em direção ao templo e, antes que pudesse alcançar lembranças de Cristina, o rabino continuou: “Você gosta de pão Challah? Eu fiz alguns hoje de manhã. Há quanto tempo não nos vemos, Don Miguel? Pelo menos desde o fim da guerra, não?”

O Rabino serviu pão e vinho. Don Miguel demorou para contar a angústia dos últimos dias.

“Ah, a guerra...”, exclamou o rabino com os olhos voltados para o alto. “Você sabia que eu servi o exército, não? Foi uma época muito difícil para mim. Eu estava dividido, num dilema existencial. Por um lado, a minha vocação religiosa. Por outro, o meu dever cívico”. Fez silêncio e Don Miguel saboreou o pão judaico. “Eu pedia a Deus apenas por uma única coisa: que eu nunca tirasse a vida de um ser humano. Então, tomei a decisão de ser piloto. Pensei que sendo piloto eu não iria para o combate, apenas transportaria soldados e suplementos. Mas, numa manhã, não me lembro o dia exatamente, fui encarregado de bombardear uma cidade inimiga, na divisa do país. Eu entrei em desespero. Um colega me convenceu que o responsável pela ação seria o comandante, a quem eu obedecia ordens. Contra a minha índole, voei em direção à pequena cidade para lançar a poderosa bomba. Mal sabia eu, muito menos meus superiores, que acontecia um casamento civil naquela cidade. Não havia exército nem militares! O alvo era errado! Durante o trajeto, antes de alcançar o meu destino, eu tive cólica: uma dor de barriga forte, tão forte, que eu não resisti e abandonei a missão, sabendo dos riscos que eu correria. E vou te dizer: o maior alívio não foi ter ido ao banheiro e nem ser punido pela minha decisão, mas saber que o alvo estava errado e ninguém havia morrido, Don Miguel. Ninguém morreu! Moral da história: às vezes o intestino é mais inteligente que o cérebro!”

A satisfação na face do rabino contagiava Don Miguel à medida que conversavam. Relembraram os velhos tempos universitários, onde compartilhavam cafés noturnos com o mesmo tutor.

“Existem certas coisas impossíveis de se controlar, Don Miguel. Mas, quando colocamos a nossa vida a serviço do bem, quando temos intuições boas, até mesmo aquilo que não controlamos promove situações boas”, prosseguiu o rabino após ouvir sobre a inquietação de Don Miguel e servir vinho ao amigo.

“Sabe, a guerra e os amores me fizeram pensar sobre os limites da condição humana. Creio que o dilema mais corriqueiro e igualmente importante da vida é a liberdade. Eu te ofereci água ou vinho. Você é livre para escolher. Porém, no momento em que optou por beber vinho, você está limitado, ou destinado, a beber vinho. Onde está a tua liberdade? Toda escolha é livre, mas implica em compromisso e responsabilidade. Quem constrói o destino é o próprio ser humano em sua liberdade. Quem confunde os limites oriundos das escolhas com falta de liberdade é quem não sabe ser livre, nem sabe escolher”, inferiu o rabino.

Don Miguel aproveitou as reflexões de Joseph e trouxe para a conversa a sua inquietação acerca do relacionamento que havia deixado marcas.

“Essa tua inquietude tem a ver com a nossa conversa”, reagiu à história de Don Miguel. “Certa vez, quando eu era jovem, eu tive uma experiência que me ensinou sobre a liberdade. Naquela época, eu não queria saber de religião e tinha perdido o interesse na fé. Queria ser livre completamente. Eu estava noivo de uma linda mulher. O meu pai nos apresentou em uma festa de ano novo judaico. Ela e eu planejávamos morar juntos à beira do rio do vale. O meu pai brincava contando as horas em seu relógio de ponteiros de pulso para ver a celebração matrimonial. Ele gostava muito dela.”

Fez uma pausa, bebeu um pouco de vinho. Don Miguel sentiu peso nas palavras do amigo.

“Alguns dias antes da cerimônia, o meu pai faleceu. Ele foi assassinado em um assalto mal anunciado. O assassino nunca foi identificado. Não gosto de pensar nos detalhes desta história. Desculpe. Eu entrei numa profunda tristeza a ponto de minha noiva e eu adiarmos o casamento. Relutei em aceitar a morte dele. Após algumas estações, o sentimento ficou mais leve e, quando eu estava pronto para remarcar o casamento, minha noiva ficou grávida. O dia em que soubemos da gravidez foi a primeira vez após a morte do meu pai que eu voltei a sorrir de verdade. Nós nos preparamos e senti um novo momento em minha vida. Porém, no nascimento da minha filha, outra tragédia: a minha noiva não suportou o parto e faleceu. A dor da perda do meu pai voltou naquele instante. Era como se o dia mais triste da minha vida não tivesse terminado. Perdi o meu pai e a minha amada, um após o outro. Não importa se havia um intervalo longo entre as duas fatalidades. O amor não conhece o tempo. Foi o pior período da minha vida”, apoiou os cotovelos nos joelhos, mãos unidas. “Bem, onde entra a liberdade?”, questionou seguido de silêncio. “Na noite em que a minha noiva faleceu, após lidar com a notícia e saber que a minha filha dormia segura com os cuidados médicos, eu estava deitado na cama do hospital, em profunda indignação. Eu precisava aprender a viver novamente. Mas, como? Questionei Deus com todos os Seus nomes, perguntei pelo propósito da minha vida, revoltei-me com toda e qualquer possibilidade do sagrado. Ao mesmo tempo, pedi um sinal de vida. Curioso isso, não? Quando estamos numa situação limite, extrapolamos todos os sentidos que conhecemos. Apesar dos meus estudos e do meu conhecimento científico, desejei, ingenuamente, que a vida pudesse ter um botão onde pararíamos o tempo, voltaríamos atrás e não sairíamos mais dos momentos alegres. Eis então”, inclinou-se para frente, “que algo extraordinário aconteceu”, fitou Don Miguel nos olhos.

Don Miguel ainda não tinha acabado de saborear seu pão quando ouviu a declaração do rabino:

“Naquele dia no hospital, deitado na cama, no momento mais dolorido, eu ouvi o som dos ponteiros do relógio do meu pai.”

Don Miguel parou de mastigar e alisou a barba.

“Era o som do relógio do meu pai, ao meu lado, eu sei, o mesmo em que contávamos os dias para o casamento. O seu relógio de ponteiros de pulso! Você pode duvidar, mas o som era real. E naquele momento eu entrei num estado de paz como eu nunca havia imaginado conseguir alcançar, ainda mais depois de tais perdas. Senti a mesma sensação boa dos momentos felizes que eu tive com o meu pai. Aquilo me confortou profundamente e me deu força para estar onde eu estou hoje.”

Sem querer desviar o assunto, Don Miguel perguntou onde entraria o problema da liberdade.

“Ouve o vento?”, indagou o rabino, apontando para cima. “O vento está no lugar natural dele. Assim como o vento, nós temos alguns lugares e algumas tarefas na vida. O vento existe quando ele venta. Ele pode estar destinado a ventar. Mas, ele é livre para onde vai soprar. Quando ele sopra para a direção que quer apesar dos obstáculos, ele venta que faz assovios! Ouça o assovio de felicidade dele”, e longe um fino ruído ecoou pela sala. “A vida é movimento, como o vento, caro Don Miguel. Nada morre na véspera. Eu aprendi que para tudo há um sentido que atravessa o tempo. Eu não poderia escapar do meu lugar e da minha tarefa. Quanto mais eu me distanciava de mim mesmo, mais os eventos da minha vida me traziam de volta para o meu caminho. Já pensou quantos pais ou quantas noivas eu teria matado se eu tivesse relutado com o meu intestino durante a guerra e bombardeado a cidade?”, interpelou, tomando o último gole do vinho.

Uma brisa de vento quente e macio tocou o ouvido de Don Miguel. Ela o lembrou das manhãs colegiais, quando, certa vez, fez companhia a um professor de matemática após o acidente da filha dele. O professor se fragilizou diante da tragédia, enquanto Don Miguel, mesmo jovem, esteve ao lado do mestre e o confortou.

O rabino, ao ver Don Miguel pensativo, não sabia se havia ajudado o amigo ou se o fizera perder-se em suas reflexões. Mas conhecia o brilho por detrás do olhar descoberto do passado. O rabino ergueu as mãos, Don Miguel juntou suas mãos às dele.

“Vá em paz, Don Miguel”, saudou o rabino, servindo-se de outro pedaço de pão e cantarolando um hino.

Don Miguel se retirou do Templo dos Ancestrais em direção à floresta com a bolsa cheia de pães ázimos que ganhara do rabino e os pensamentos balsamados. Reencontrou Nuvem Branca e o presenteou com o colar com uma pena de águia e um pão. O índio, apaixonado por aves, agradeceu-lhe em silêncio imanente. Don Miguel voltou ao oráculo com a vela na mão. A senhora estava pronta para repousar quando recebeu Don Miguel. “Você está mais leve? Eu acho que sim”, disse, reluzente, ao ganhar um pão e a vela, que não completaria o candelabro trinitário, mas, pelo menos, traria uma segunda luz ao ambiente de trabalho.

Num átimo de redenção, Don Miguel regressou à sua cidade. Naquele instante, sentiu-se vazio e, ao mesmo tempo, feliz. Procurou o mendigo, na rua de seu ofício, para quem gostaria de ofertar alguns dos pães que ganhara de Joseph. O mendigo não se encontrava na costumeira esquina. Don Miguel esperou. Pessoas e bondes passaram. Em passos lentos, dirigiu-se à universidade. Muitos fugiam da ventania e dos trovões. Ele não se apressou. Na cidade cinza Don Miguel enxergava palavras; nos e ruídos urbanos, ideias.

Calmamente, adentrou o campus. Sentou-se no auditório, espalhou livros, anotações e pães pela mesa. “Comam”, disse sorrindo pela primeira vez. Os alunos estranharam o sorriso do professor. Aproximaram-se, serviram-se de pedaços de pão. Sugeriu que preenchessem as cadeiras ao redor da mesa do professor. “Hoje fechem os livros.” Olhou para cima. “Ao invés de teorias e ideias, contarei uma história.” Os alunos fizeram silêncio. “Uma história de paixão de um homem que uma vez amou e deixou de amar.” Um rapaz elevou a mão ao queixo, uma moça semicerrou os olhos. “Mas, mesmo na profundeza da solidão e da descrença, ele foi intercedido pela providência divina e voltou a sorrir.” Os alunos sentiram uma mudança no repudiado mestre. Não sabiam precisar a transformação, mas perceberam que o professor, pela primeira vez, estava sem o colar com uma pena de águia.

Este foi o terceiro dia.

Teatro do Sonho

Naqueles dias, prestando alegria e tristeza, no barco frágil da realeza, em direção à margem calma; se me visse na tempestade, teor da glória passada, o sofrimento em meus olhos, a força em meus braços, a dedicação em minha alma, poderia encantar-se e redescobrir-se em sua própria jornada, ao invés de tirar-me o previsto para reafirmar-se diante dos outros – diante de mim. Não pude evitar o devir do porvir. Frente ao meu desafio ontológico, daquele sopro divino que acalma o balanço e ergue o corpo – o toque incondicional que a vida dá em cada pessoa – encontrei a indecisão: negação da decisão; mais forte que a dúvida é negar nossa própria escolha. É optar por algo e negar o compromisso e as consequências da opção. É, no fim, encontrar o não-encontrável. Pois só posso encontrar o que conheço ou busco conhecer; só posso encontrar quem vejo ou quem desejo ver; só posso encontrar aquilo que sou ou que desejo ser – e quando penso ter encontrado algo novo, apenas reconheci aquilo que eu já conhecia em algum lugar dentro de mim. Um momento sozinho é impossível quando os amigos, aqueles que nos divertem, fazem-nos esquecer do desafio primeiro de nossas vidas. Dói falar disso, mas no final quem alcança seu projeto? Entregam-se aos confortos da alma, às convicções da mente, aos recreios que evitam a mudança ao esconderem – ou transmudarem – suas próprias faces.

Agora, o que se passa, tudo passa, na vila e na cidade, astúcia na alteridade da própria identidade. Que se passa neste deserto que caminho, quase sagrado, voltado para o próprio agrado do recanto verossímil do imaginário? Disse um filósofo que uma ave desejou extinguir o ar para que ela pudesse voar com mais liberdade. Mas, sem o ar a ave caiu e suas asas de nada adiantavam. Paradoxalmente, o atrito do ar é que faz a ave voar, tornando-a livre. Eu poderia me adaptar às mediocridades da cultura e da tecnologia, do conforto dos partidos políticos, da avareza das religiões, numa vida sem problemas, sem desafios e sem ar para voar; ou poderia adentrar no deserto e viver tensões profundas, de questionamentos e respostas que muitos temem procurar. Onde a vida é um palco e cada pessoa vive seu próprio colóquio, há imagens degradadas e utopias domesticadas; há a parte do grupo, da comunidade e do partido, que oferece agrados e seguranças; há a felicidade criada em função do outro para evitar ansiedades e angústias. A ideologia é tão forte que não se pode viver sem ela – e vive-se acreditando que não se tem ideologia. Porém, onde a vida é uma planície cercada por montanhas, há agora o deserto e o sol; há o sonho de conquistar o ideal; há a incorporação da dor para superá-la; há a própria razão a serviço dos sentidos esquecidos; há a passagem que aguarda o viajante retornar. O silêncio tão presente também tem algo a falar – e esse me diz que se eu trilhar tal deserto estarei fadado a viver um proscrito solitário; porém, antes, estarei poupado da crença nos desígnios totalitários e enganosos que as pessoas criam, sozinhas ou em grupo, para nos fazer confundir nossas boas intenções com seus projetos, e nos conquistar a fé.

Na dor e na solidão, estrênuo no deserto, salvo das amarras do passado e da memória, não há mais face a face, nem face a máscara. Dir-te-ia, nobre face eterna, pastor de ovelhas deixadas à esquerda, e também à direita – ou melhor, aos extremos –, reverendo de ajuntamento, recapitulação e totalização, quão misteriosa é minha opção ao desterro. No ardente, criei faces – ou máscaras? Tenho duas: uma para mim quando estou sozinho e outra para mim mesmo quando te vejo. Ao bateres à porta, visto-me, na veemência da decisão, com a máscara de fora. Esta é velha, uma vez que a vesti na juventude e não mudei deveras. Com qual falo agora? A máscara de dentro ou a máscara de fora? Como saberás, se elas mudam e transmudam frente a frente? A de fora tu podes reconhecer, se tiveres percepção para isso. Ela conflita, expõe e engana-me na tentativa de enganar-te. É maliciosa e fria, comigo e contigo. Ao primeiro vento ela cai, destroça-se, destroça-me e, talvez, destroçar-te-á – se uma vez me amaste. Sem a máscara de fora, aparecerá a máscara de dentro; mas apenas seu verso, aquele pelo qual observo e penso convencer, penso conviver, penso ludibriar. Eu vejo, tu vês, algo que não podemos compreender quando estou à frente da máscara que criei, e tu atrás da máscara que negas.

Nesta convivência construída por máscaras vagas, num outro universo estaremos. Um outro eu que pensa ser eu. Uma outra vida que pensa ser a minha. Alguém a vive, eu vivo, eu me vivo, eu a vivo – em mim, em ninguém. Pois, se no percurso do discurso eu tomar outra direção, quem serei? O de lá, que há de ser, ou o de cá, que está sendo? Se o de lá é a decisão que eu não tomei, é a vida que eu não vivi, é a existência que eu não contemplei, como poderei ser eu mesmo diante do mistério do universo? O mistério dos mistérios não é saber se viveremos para sempre, mas se viveremos o instante e o presente, sem máscaras e precedentes. O fundo sem fundo, enigma do mundo, virado do avesso para um verso sem par; este é infinito, solto no ar, nada a segurar, a não ser meu medo de voar... E esta máscara, que se volta para mim e transgrediu o cronos para o kairos, essa não quebrará, não cairá; é a máscara que vejo e sempre vi, que criei e sempre cultivei, que me reflete e sempre guardei. Polida, esculpida, almejada e realizada. Ela imita aquela máscara que coloquei na sua face para poder encantar-me com os caminhos pelos quais não percorri e cujas belezas não contemplei. E nunca nos veremos realmente, pois enquanto estou com minhas máscaras que atrapalham, que turvam, que deslizam e fingem ser livres e verdadeiras, tu estás com as tuas, e que não são mais puras.

Meu outro eu, longe, carrega minhas tentações, medos e aflições – na possibilidade de te agradar; enquanto que o meu eu, próximo, só te mostra minhas alegrias, felicidades e belezas – no vigor de te contentar. Quem me dera; eles são o mesmo, aqui e ali, deserto e montanha, com máscaras, uma para dentro e outra para fora. As máscaras de fora se olham como espelhos projetados para o nada do além vazio; sem sentido. As máscaras de dentro se dão as costas voltadas para o próprio mundo que tentam lograr; sem relação. Basta tanta falsidade, comprometida alteridade que nunca existiu e talvez nunca existirá, enquanto vivermos no imaginário de teatros onde a vida é confundida com os sonhos de quem deixou de amar.

Deus

“Vamos lá, Timão, vamos lá!” dizia Daniel, alto e eufórico, diante da televisão do bar The Blue Pub.
“Obrigado por me convidar para assistir ao jogo contigo”, disse Rafael.
“Sem problemas, Rafael, sua companhia é um prazer”, disse Daniel. “O importante é o Timão ganhar hoje!”
“Vamos lá, Timão!”, exclamou Rafael.
A garçonete entregou-lhes cardápios. Era uma moça alta, rosto liso, atraente, cabelo curto e corpo deslumbrante. Discreta, trajava um avental azul com a logomarca do bar. A parede atrás do balcão era decorada por bebidas caras e raras. Havia um grande espelho completando a decoração da parede e refletia o corpo da garçonete, disputando audiência com a televisão. Enquanto Daniel não tirava os olhos da televisão, Rafael não os tirava da garçonete; e disfarçava, lendo o cardápio.
Um senhor surgiu por detrás do balcão e ajudou a garçonete em algumas tarefas.
“Vou ao Bicanca e já trago o restante do bar”, disse o senhor à garçonete.
“Puxa vida, como as coisas aqui são caras”, pensou Rafael ao dar espaço para o senhor sair do balcão.
Entre os preços altos que se destacavam, estava uma bebida chamada Deus.
“Daniel, veja só o preço desta bebida, que caro!”
“É mesmo. Estarei satisfeito com uma ou duas cervejas comuns”, comentou Daniel, examinando rapidamente o cardápio para não perder um único lance de seu time.
“Daniel, se o Timão estiver perdendo, a gente pode fazer uma vaquinha e comprar Deus; que tal?”
“Uhhh... quase gol do Timão!”, pulou Daniel na cadeira, dando risada da piada do amigo após o lance do time.
“Desejam pedir algo?”, perguntou a garçonete limpando o balcão. Rafael encantara-se com a garçonete. Ela, por sua vez, divisava um rapaz elegante no outro lado do bar.
“Eu quero uma cerveja”, respondeu Rafael fixando-lhe a vista profundamente.
“Eu também quero uma”, aproveitou Daniel sem prestar atenção na moça.
Ela anotou os pedidos com rapidez. Rafael coçou o queixo e alisou o cabelo.
“E ai, Daniel, conte-me sobre a fotografia que tirastes com o goleiro do Timão!”, perguntou Rafael espreitando a garçonete levar os pedidos para a cozinha.
“Ah, sim! Eu fui ao shopping, numa loja esportiva. O goleiro estava lá tirando fotos e dando autógrafos.”
“E você conseguiu uma foto?”
“Sim, eu consegui tirar uma fotografia com ele, mas junto com um monte de gente que eu nunca vi na vida.”
A garçonete retornou e entregou-lhes as cervejas. Daniel bebia, apreensivo com o desempenho de seu time.
“Quem comprasse uma camiseta na loja poderia tirar uma fotografia individualmente e pegar autógrafo com o goleiro. Como eu não comprei, e a maioria dos que estavam lá também não, fizeram uma fotografia com todos juntos ao final”, completou Daniel.
Rafael ouvia o amigo e girava o porta-copos entre os dedos. Continuava a dividir sua atenção entre o jogo de futebol e a garçonete.
“Legal este porta-copos inglês. Será que podemos levar para casa?”
“Não sei. Podemos consultar”, respondeu Daniel.
“Moça!”, chamou Rafael quando a garçonete passou próximo. “Eu posso levar este porta-copos para casa como lembrança do dia em que te conheci?”
“Pode”, respondeu a garçonete, balançando os ombros e sorrindo displicentemente. Enxugou um copo e foi para o outro lado do balcão.
“Rafael, uma cerveja apenas não justifica esta cantada mal feita”, comentou Daniel achando graça.
“Oh, não...”, interrompeu Rafael olhando para a televisão.
“O que aconteceu?”
Daniel olhou assustado para o televisor.
“Gol do Palmeiras...”
“Não acredito! Como?”, indagou Daniel com as mãos na cabeça.
Eles assistiram incrédulos ao replay do lance. O barulho no bar dividia-se entre lamentações e gozações.
“Ai, Timão, o empate já nos classificaria!”, lamentou Daniel. Bebeu um longo gole da cerveja. “Droga, quanto custa a garrafa Deus?”
“R$ 159,00”, respondeu Rafael.
“Caramba, dá para comprar 50 refrigerantes com este preço.”
“Na igreja Deus é de graça, não?”
“Dependendo da igreja, pode até sair mais caro.”
“Mas se funcionar...”
Eles fizeram silêncio atentos ao jogo. Assistiam apreensivos aos instantes finais da partida.
“Vamos comprá-la!”, exclamou Daniel, impaciente e resoluto, sem tirar os olhos da tela.
Rafael pensou que fosse brincadeira, mas Daniel falava sério.
“Moça, por favor, queremos uma garrafa Deus”, solicitou Daniel.
“Ai, moço, infelizmente Deus está em falta”, respondeu a garçonete com seu jeito todo especial.
“Não acredito!”, exclamou Daniel.
“Nenhuma outra bebida no estilo? Talvez chamada Alá?”, disse Rafael.
“Não”, sorriu a garçonete. Ela recebeu um olhar demorado do rapaz pelo qual se interessara no outro lado do bar. Discretamente, ela foi arrumar a prateleira.
O senhor retornou com uma caixa para a garçonete e esbarrou no ombro do Rafael ao entrar no balcão. Ele se dirigiu para a cozinha e a garçonete abriu a caixa, olhando de volta para o rapaz, que sorriu para ela.
“Vamos lá, Timão, vamos lá!”, gritou Daniel com o rosto pesado.
A garçonete descarregou os produtos das caixas e arrumou algumas novas taças e bebidas na prateleira.
“Gol?”
“GOL!”
“GOOOL!”
Daniel e Rafael pularam de alegria com a surpresa de um gol do Corinthians no minuto final do jogo. Abraçaram-se e comemoraram. Os olhos de Daniel brilhavam. Ele saboreava a cerveja com gosto e já solicitava outra.
“É isso aí, Timão!” “Eu nunca vou te abandonar!” “Aqui tem um bando de loucos, loucos por ti, Corinthians!”, cantava Daniel.
Rafael divertia-se com a alegria do amigo. Gostaria de fazer sucesso com a garçonete como o time de futebol fazia com eles. Deslumbrava-se mais com ela do que com o próprio jogo vitorioso. Observou-a trabalhar e terminar de arrumar a prateleira. Perguntou-se se haveria mulher mais linda que ela que pudesse estar ao seu alcance algum dia.
A garçonete colocou a última garrafa no canto da prateleira e foi para a cozinha. Rafael permaneceu contemplativo com a imagem da garçonete correndo pelo reflexo. Seu olhar terminou de acompanhá-la, ao final do espelho, e ele arregalou os olhos quando viu o último item que ela colocara na prateleira. Era a garrafa Deus.