A Fumaça e o Escuro

Quando Deus criou o mundo, o seu objeto de criação se tornou no sujeito da relação. O mundo é relacionamento e sua órbita cria eclipses que doam sentido aos movimentos da vida. O convívio familiar, os problemas no trabalho, a vida comunitária, a representação religiosa no imaginário coletivo, o trabalho do professor com o aluno, o atrito do filho com o pai, as histórias de amor, a felicidade do beijo, a realização do sexo... Muitos exemplos, dos quais posso desviar. A saber, um dos raros movimentos presente no cotidiano é o reconhecimento. Ora, gesto rotineiro, mas abandonado e esquecido por quem se coloca num relacionamento. Estar com alguém faz parte do autoconhecimento, do conhecimento de si mesmo. Relacionar-se com alguém é ter o reconhecimento de si intermediado por esse alguém e pelo momento único que configura o encontro. “Diga-me com quem tu andas que te direi quem és”, fala o ditado popular. O outro é o nosso espelho, de modo que vemos um pouco de nós no outro. A relação entre duas pessoas acorda silenciosamente, onde o outro é incluído em um mundo comum. Sem que nos demos conta, o outro já preenche a dura camada rotineira no movimento orbital do reconhecimento. Neste preenchimento, há dois caminhos distintos pelos quais é possível trilhar: estar com alguém por querer conhecer-se melhor ou estar com alguém pelo medo, pela fraqueza ou pela fuga do conhecer-se melhor.

Toda relação implica em um ato corajoso de ser. Se alguém nos falha a lealdade, mesmo sob o pretexto do elogio e da bondade a qual eles alegam sustentar, devemos saber que o convívio com tal pessoa tornar-se-á embaçado, turvo, roco, enfadonho. Pois vivemos para aprender e, assim sendo, os relacionamentos formam os aprendizados mais originais – e divinos – que a vida pode nos proporcionar. Deles não podemos escapar, nem mesmo se nos tornarmos eremitas e ermitões, isolados no cimo de uma montanha ou em um mosteiro silencioso: mesmo assim, agimos em reação ao outro, respondendo em retidão e obstinação total para evitá-lo. Se correspondo aos desafios do relacionamento enclausurando-me, qual o mérito de minhas ações? Relacionamentos, novamente, são aprendizados; e o desafio de viver consiste em compreender as lições que deles advêm.

De fato, não podemos escapar de nós mesmos. O relacionamento reflete aquilo que está no prefácio do desafio de cada indivíduo. Evitar-se, em primeiro lugar, é o maior dos pecados – o pecado capital esquecido. O ato corajoso no aprendizado supera a queda da acídia. Dos sete pecados capitais, a acídia – substituída pela preguiça, ao longo dos anos de capitalismo – assombra as relações dispostas ao aprendizado. Trata-se da tristeza e a fumaça que queima no interior, no escuro da alma, quando não se alcança a altura para a qual se é chamado na vida, tanto na esfera humana quanto na espiritual. Há, no devir de cada indivíduo, um bem inigualável, reservado por Deus no mistério do eclipse da criação. Tal bem edifica a filiação divina do indivíduo consigo mesmo, se assumido na difícil tarefa do reconhecimento. A passagem do tempo e a deterioração prefere a comodidade, a facilidade. O abandono de si causa inquietação e confusão no íntimo reservado diante de qualquer relacionamento. Desespero, barulho, discussão, queimação e tristeza. A angústia de quem não realiza suas faculdades mais belas faz escapar o aprendizado colocado em questão. Pois, justamente pela complexidade do aprendizado imanente, o milagre é quando aprendemos algo que Deus quer nos ensinar.

É deveras comum o desvio dos aprendizados implícitos nas relações que cruzaram caminhos individuais. A pessoa no pecado da acídia deseja, acima de tudo, aproveitar-se dos outros, tirar algo do outro em benefício de si própria, ganhar alguma coisa do outro que a fará contente e confortável, em suma, um gesto voluntário que a afasta do desafio involuntário da graça do aprendizado. Afinal, se não houver este proveito, para ela, a relação não valeria a pena, uma vez que aproveitar-se é o único caminho, de modo que o outro, caso negue esse proveito alheio, tornar-se-ia uma pessoa chata, incompreensível ou inoportuna – ao contrário, tal pessoa é apenas alguém que aproxima o outro do desafio involuntário. Aquele que evita o chamado existencial coloca-se no preenchimento da vida em esferas desesperadas – vícios, drogas, sexo desenfreado etc. – como um remédio para acalmar as inquietações profundas da alma, na tentativa de livrar-se da angústia. Compra-se o outro, compra-se qualquer saída temporária e imediata. O atrito surge no silêncio da noite, repetidamente, até que seja possível o despertar, assim como o Sol repetidamente se levanta para trazer uma nova oportunidade diária. Aqueles que não se deixam interpelar pelos raios do Sol, entregam-se aos riscos do sono que, do mesmo jeito que leva trabalhadores aos sonhos, pode levar os preguiçosos aos pesadelos.

Ainda, se a energia dos bons é invejada por quem foi tomado pela acídia, pelos incompetentes, por aqueles que não acreditam em si mesmos ou não possuem a coragem de ser, qual a vantagem, ou melhor, qual o aprendizado da pessoa que se dispõe a viver em um relacionamento nessas circunstâncias adversas? Se a pessoa cujas motivações são boas já reconhecem na amizade ou no relacionamento apenas desgaste e desvio de seu centro, se essas coisas já lhe forem conscientes, pois bem, nada de novo ele poderá aprender, a não ser que a repetição, nesses termos, é prejudicial. Se, por outro lado, as pessoas em relação desejarem e aspirarem à mudança mútua, em seu âmago, o reconhecimento é verdadeiro e possível. Se uma destas pessoas se aproveita do outro, sob o título de amigo, família ou cônjuge, estaria essa pessoa fazendo um bem a si mesma e ao outro? Se ela se apoia em pessoas bem intencionadas para esconder seus medos, suas fraquezas e suas inseguranças, como um guardião que esconde os preciosos tesouros, logo ela faltaria com respeito e amor consigo própria e com o próximo. Os relacionamentos locados na acídia são como areias movediças da existência individual. É fundamental haver troca de energia, alegria e dom, senão a relação cairá no limbo existencial, no coma do novo ser, na véspera do funeral; já que nem um nem o outro rompeu com a acídia e se negou a conhecer a si mesmo.

O filósofo Immanuel Kant se perguntou: “O que eu posso saber? O que eu devo fazer? O que me é permitido esperar?” A primeira questão, o que eu posso saber?, poderia ser traduzida em: o que eu tenho que aprender com isso? A despeito das motivações filosóficas, do prestígio do conhecimento puro, todo relacionamento nos ensina algo, até mesmo quando tocamos as fronteiras da cognição e não compreendemos a presença de um amigo ou a ausência da mulher amada. Se podemos aprender que nada morre na véspera, podemos aceitar o bem de um amigo como também rejeitar a repleção de um problema. “O que posso saber?” é o primeiro estágio do reconhecimento e abandono da acídia. O aprendizado da sabedoria situa-se além da circunstância para eventos futuros.

Aqui, o sábio se perguntará: o que eu devo fazer? A pergunta implica na resposta da primeira: querer saber o que a vida quer lhe ensinar. Alguém pode ter dificuldades a respeito de autoridade com seu pai. Se essa pessoa não cuidar deste tema e não realizar uma mudança interior, encontrará o mesmo problema em outra pessoa no futuro – sob a forma de desafio ampliado – um patrão? um tio? um sogro? “Por que continuo a repetir o mesmo problema em minha vida?”, perguntar-se-á a pessoa sincera, em algum momento do despertar. Se um homem não resolver os sentimentos maternos mal processados, poderá ter uma esposa com os mesmos incômodos. Se uma pessoa não impor limites no seu espaço em resposta à invasão de um irmão, provavelmente terá a mesma resistência com um amigo no futuro. Pois não foi exercida a mudança reservada no destino. Enquanto não aprendemos o caminho do nosso devir, estaremos fadados à repetição do erro. Não por condenação, predestinação ou karma, mas por uma infinita “segunda chance” que nos é dada gratuitamente – em nosso interior mais íntimo, em nossa relação com Deus. É devido à insistência na acídia que fazemos das repetições uma vida insuportável.

Sabendo disso, então, o que eu devo esperar? Uma vez que eu tenha mudado minha posição na vida, evitando a acídia, afastando as relações obsoletas e incorporando as vivências positivas, poderei esperar pelo mais aconselhável, mais adequado, mais certo, mais razoável e mais sensato acontecimento. Neste sentido, no percurso da confiança, o que devemos esperar é justamente a manifestação de algo admirável pelo ato corajoso da aceitação do bem que Deus separou para o reconhecimento. Quem não deseja aprender, quem escolhe temer, quem dá um passo em direção ao medo, coloca-se entre a fumaça e o escuro – coloca-se no isolamento que ofusca e sufoca. Mas, ao aprendiz, feitor do bem, perseguidor da filiação divina cujo fim é a realização pessoal das potencialidades à qual está chamado, a revelação instaura uma nova atmosfera. Revelação é justamente quando encontramos algo significativo que não poderia ser diferente daquilo que nos foi manifestado. A rigor, uma vida que presenciou ou vivenciou algo imprevisto, que se tornou especial, é uma vida interpelada em equilíbrio pelos dois planos da existência: o que é conhecido e o que é desconhecido. No entanto, para o abandono da acídia acontecer, precisa-se de fé e a coragem de ser.

A esse respeito, é salutar a importância de estar com alguém que nos ajude a conhecer a nós mesmos. No processo de convívio diário, encontramos desafios, contratempos, dificuldades, empecilhos, objeções ou adversidades, mas também alegrias, bem-estar, entusiasmo e satisfação. Se ao invés de atentarmos a essas sensações, que são o resultado involuntário dos acontecimentos, formos atentos e cuidarmos de nossas ações, seguramente teremos mais consciência de nosso papel no movimento do reconhecimento pelo qual as coisas se transformam. Em suma, Deus não se importa com o que acontece conosco: importa-se com a resposta que damos a determinado desafio ou dificuldade.

Por que é mais importante a nossa resposta ao invés dos eventos e acontecimentos? Se formos capazes de reagir positivamente, independente do caráter dos eventos, a nossa resposta, isto é, a nossa ação voluntária, ampliará o mundo além do esperado, ou seja, determinará todas as demais esferas involuntárias. Se estivermos com alguém que, no processo do reconhecimento, responde diferentemente de nós – a despeito da característica individual de cada um –, que responde com pessimismo ou desconfiança, estaremos distantes de quem somos ou de quem poderíamos ser. Sobretudo se a pessoa, na esfera voluntária, se entregar à acídia, de modo que as virtudes humanas se tornem ofuscadas ou esquecidas. Um relacionamento é sempre, nesse sentido, um futuro em potencial, uma vez que ambos olham para o mesmo horizonte e buscam possibilidades em comum. Penso, para ilustrar tal dilema, em estágios. Uma resposta, conivente ou inconivente, implicará em um comportamento e, principalmente, na consequência de um evento. Pensar em estágios é colocar a ação em função nobre, isto é, saber que a resposta pode nos levar a habitar estágios mais elevados da alma ou a habitar estágios antigos entre a fumaça e o escuro. Uma pessoa, em suas razões, mantem-se ligada à outra, pois algo nessa outra lhe interessa: dinheiro? status? conforto? abrigo? carinho? barganha? ego? Há inúmeras razões. O motivo só será nobre – e, por que não, divino? – se ele apontar para o elemento mais essencial da vida; se ele indicar o caminho de novidade; se ele escolher a passagem que levará a pessoa ao mais profundo questionamento e sentido do seu ser. Alguns chamam este fim de Deus, outros de ser supremo, realidade última, incondicionado, ser em si, ou qualquer outra forma ou nome possível de nomear. O que está em questão, e que escapa a muitos, é: um relacionamento verdadeiro só tem um único interesse: ajudar o outro a ser ele mesmo conforme nos ajudamos a ser nós mesmos. As semelhanças são notórias para quem conhece o Evangelho: “amai-vos uns aos outros como a si mesmos”. Este é o ponto alto e feliz de todo relacionamento e de toda posição social. Não por acaso disse Miguel de Unamuno: “Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.” A amizade é, portanto, uma luta contra a acídia, um sinal incondicional no processo do reconhecimento.

Enganar-se-ia quem inferir egoísmo, individualismo ou cinismo nestas reflexões. A alma antiga conhece a dificuldade do reconhecimento e sua incompatibilidade com os espíritos rameiros, aproveitadores e ardilosos rubricados nas fissuras da acídia. Eu poderei ajudar a quem me quer bem, pois ao me desejar o bem a pessoa antes de tudo deseja o bem a si mesma. O contrário também é verdadeiro: como poderei ajudar alguém se eu não me desejo o bem? Se eu não me ajudar, eu estarei fugindo de mim mesmo. Quem cruzar meu caminho, ao invés de ter o seu reconhecimento aflorado, será testemunha da minha fuga e sofrerá o atrito desnecessário do distanciar-se de si por conta do erro do outro – no caso, o meu erro. Estarei vulnerável a todo e qualquer abuso perverso da existência quando eu buscar nos desvios a calma para o desespero e da angústia da alma. Porém, se procuro o melhor, para mim e, consequentemente, para o outro, não tolerarei nem permitirei a acídia, nenhuma relação aborrecida, descontente ou insatisfeita; vampiresca, sugadora ou usurpadora. “Você é mais do que isso”, direi a quem se presta a tal violação, a começar por mim mesmo. Se tiverem olhos preparados, verão quão pequena é a resposta da fuga – que incansavelmente atribui ao outro a responsabilidade das emoções e consequências involuntárias.

O meu papel, como de qualquer pessoa no mistério da vida, é atingir a estatura à qual sou chamado; buscar a realização pessoal em face da mediocridade; exercer a tarefa do reconhecimento no percurso da incondicional filiação divina dos aprendizados; em suma, é tornar-me senhor de mim mesmo. Quão pretensioso querer encontrar a felicidade no outro que mal é o senhor dele mesmo. E quanta presunção desejar mudar quem não aspira à mudança. Eu só posso mudar a mim mesmo pela gratuidade do reconhecimento e, no máximo, encantar quem quer ser encantado pelo mistério da vida, inspirar quem inspira a si, conviver com quem assim também se permite conviver: pessoas dispostas a amar e serem amadas porque aprenderam lições fundamentais no convívio com o outro e encontraram um sentido mais profundo diante das imperfeições e fraquezas humanas.

O resto, se não é atrito para o crescimento ou aprendizado inevitável, é sopro do divino.