Deus

“Vamos lá, Timão, vamos lá!” dizia Daniel, alto e eufórico, diante da televisão do bar The Blue Pub.
“Obrigado por me convidar para assistir ao jogo contigo”, disse Rafael.
“Sem problemas, Rafael, sua companhia é um prazer”, disse Daniel. “O importante é o Timão ganhar hoje!”
“Vamos lá, Timão!”, exclamou Rafael.
A garçonete entregou-lhes cardápios. Era uma moça alta, rosto liso, atraente, cabelo curto e corpo deslumbrante. Discreta, trajava um avental azul com a logomarca do bar. A parede atrás do balcão era decorada por bebidas caras e raras. Havia um grande espelho completando a decoração da parede e refletia o corpo da garçonete, disputando audiência com a televisão. Enquanto Daniel não tirava os olhos da televisão, Rafael não os tirava da garçonete; e disfarçava, lendo o cardápio.
Um senhor surgiu por detrás do balcão e ajudou a garçonete em algumas tarefas.
“Vou ao Bicanca e já trago o restante do bar”, disse o senhor à garçonete.
“Puxa vida, como as coisas aqui são caras”, pensou Rafael ao dar espaço para o senhor sair do balcão.
Entre os preços altos que se destacavam, estava uma bebida chamada Deus.
“Daniel, veja só o preço desta bebida, que caro!”
“É mesmo. Estarei satisfeito com uma ou duas cervejas comuns”, comentou Daniel, examinando rapidamente o cardápio para não perder um único lance de seu time.
“Daniel, se o Timão estiver perdendo, a gente pode fazer uma vaquinha e comprar Deus; que tal?”
“Uhhh... quase gol do Timão!”, pulou Daniel na cadeira, dando risada da piada do amigo após o lance do time.
“Desejam pedir algo?”, perguntou a garçonete limpando o balcão. Rafael encantara-se com a garçonete. Ela, por sua vez, divisava um rapaz elegante no outro lado do bar.
“Eu quero uma cerveja”, respondeu Rafael fixando-lhe a vista profundamente.
“Eu também quero uma”, aproveitou Daniel sem prestar atenção na moça.
Ela anotou os pedidos com rapidez. Rafael coçou o queixo e alisou o cabelo.
“E ai, Daniel, conte-me sobre a fotografia que tirastes com o goleiro do Timão!”, perguntou Rafael espreitando a garçonete levar os pedidos para a cozinha.
“Ah, sim! Eu fui ao shopping, numa loja esportiva. O goleiro estava lá tirando fotos e dando autógrafos.”
“E você conseguiu uma foto?”
“Sim, eu consegui tirar uma fotografia com ele, mas junto com um monte de gente que eu nunca vi na vida.”
A garçonete retornou e entregou-lhes as cervejas. Daniel bebia, apreensivo com o desempenho de seu time.
“Quem comprasse uma camiseta na loja poderia tirar uma fotografia individualmente e pegar autógrafo com o goleiro. Como eu não comprei, e a maioria dos que estavam lá também não, fizeram uma fotografia com todos juntos ao final”, completou Daniel.
Rafael ouvia o amigo e girava o porta-copos entre os dedos. Continuava a dividir sua atenção entre o jogo de futebol e a garçonete.
“Legal este porta-copos inglês. Será que podemos levar para casa?”
“Não sei. Podemos consultar”, respondeu Daniel.
“Moça!”, chamou Rafael quando a garçonete passou próximo. “Eu posso levar este porta-copos para casa como lembrança do dia em que te conheci?”
“Pode”, respondeu a garçonete, balançando os ombros e sorrindo displicentemente. Enxugou um copo e foi para o outro lado do balcão.
“Rafael, uma cerveja apenas não justifica esta cantada mal feita”, comentou Daniel achando graça.
“Oh, não...”, interrompeu Rafael olhando para a televisão.
“O que aconteceu?”
Daniel olhou assustado para o televisor.
“Gol do Palmeiras...”
“Não acredito! Como?”, indagou Daniel com as mãos na cabeça.
Eles assistiram incrédulos ao replay do lance. O barulho no bar dividia-se entre lamentações e gozações.
“Ai, Timão, o empate já nos classificaria!”, lamentou Daniel. Bebeu um longo gole da cerveja. “Droga, quanto custa a garrafa Deus?”
“R$ 159,00”, respondeu Rafael.
“Caramba, dá para comprar 50 refrigerantes com este preço.”
“Na igreja Deus é de graça, não?”
“Dependendo da igreja, pode até sair mais caro.”
“Mas se funcionar...”
Eles fizeram silêncio atentos ao jogo. Assistiam apreensivos aos instantes finais da partida.
“Vamos comprá-la!”, exclamou Daniel, impaciente e resoluto, sem tirar os olhos da tela.
Rafael pensou que fosse brincadeira, mas Daniel falava sério.
“Moça, por favor, queremos uma garrafa Deus”, solicitou Daniel.
“Ai, moço, infelizmente Deus está em falta”, respondeu a garçonete com seu jeito todo especial.
“Não acredito!”, exclamou Daniel.
“Nenhuma outra bebida no estilo? Talvez chamada Alá?”, disse Rafael.
“Não”, sorriu a garçonete. Ela recebeu um olhar demorado do rapaz pelo qual se interessara no outro lado do bar. Discretamente, ela foi arrumar a prateleira.
O senhor retornou com uma caixa para a garçonete e esbarrou no ombro do Rafael ao entrar no balcão. Ele se dirigiu para a cozinha e a garçonete abriu a caixa, olhando de volta para o rapaz, que sorriu para ela.
“Vamos lá, Timão, vamos lá!”, gritou Daniel com o rosto pesado.
A garçonete descarregou os produtos das caixas e arrumou algumas novas taças e bebidas na prateleira.
“Gol?”
“GOL!”
“GOOOL!”
Daniel e Rafael pularam de alegria com a surpresa de um gol do Corinthians no minuto final do jogo. Abraçaram-se e comemoraram. Os olhos de Daniel brilhavam. Ele saboreava a cerveja com gosto e já solicitava outra.
“É isso aí, Timão!” “Eu nunca vou te abandonar!” “Aqui tem um bando de loucos, loucos por ti, Corinthians!”, cantava Daniel.
Rafael divertia-se com a alegria do amigo. Gostaria de fazer sucesso com a garçonete como o time de futebol fazia com eles. Deslumbrava-se mais com ela do que com o próprio jogo vitorioso. Observou-a trabalhar e terminar de arrumar a prateleira. Perguntou-se se haveria mulher mais linda que ela que pudesse estar ao seu alcance algum dia.
A garçonete colocou a última garrafa no canto da prateleira e foi para a cozinha. Rafael permaneceu contemplativo com a imagem da garçonete correndo pelo reflexo. Seu olhar terminou de acompanhá-la, ao final do espelho, e ele arregalou os olhos quando viu o último item que ela colocara na prateleira. Era a garrafa Deus.