Teatro do Sonho

Naqueles dias, prestando alegria e tristeza, no barco frágil da realeza, em direção à margem calma; se me visse na tempestade, teor da glória passada, o sofrimento em meus olhos, a força em meus braços, a dedicação em minha alma, poderia encantar-se e redescobrir-se em sua própria jornada, ao invés de tirar-me o previsto para reafirmar-se diante dos outros – diante de mim. Não pude evitar o devir do porvir. Frente ao meu desafio ontológico, daquele sopro divino que acalma o balanço e ergue o corpo – o toque incondicional que a vida dá em cada pessoa – encontrei a indecisão: negação da decisão; mais forte que a dúvida é negar nossa própria escolha. É optar por algo e negar o compromisso e as consequências da opção. É, no fim, encontrar o não-encontrável. Pois só posso encontrar o que conheço ou busco conhecer; só posso encontrar quem vejo ou quem desejo ver; só posso encontrar aquilo que sou ou que desejo ser – e quando penso ter encontrado algo novo, apenas reconheci aquilo que eu já conhecia em algum lugar dentro de mim. Um momento sozinho é impossível quando os amigos, aqueles que nos divertem, fazem-nos esquecer do desafio primeiro de nossas vidas. Dói falar disso, mas no final quem alcança seu projeto? Entregam-se aos confortos da alma, às convicções da mente, aos recreios que evitam a mudança ao esconderem – ou transmudarem – suas próprias faces.

Agora, o que se passa, tudo passa, na vila e na cidade, astúcia na alteridade da própria identidade. Que se passa neste deserto que caminho, quase sagrado, voltado para o próprio agrado do recanto verossímil do imaginário? Disse um filósofo que uma ave desejou extinguir o ar para que ela pudesse voar com mais liberdade. Mas, sem o ar a ave caiu e suas asas de nada adiantavam. Paradoxalmente, o atrito do ar é que faz a ave voar, tornando-a livre. Eu poderia me adaptar às mediocridades da cultura e da tecnologia, do conforto dos partidos políticos, da avareza das religiões, numa vida sem problemas, sem desafios e sem ar para voar; ou poderia adentrar no deserto e viver tensões profundas, de questionamentos e respostas que muitos temem procurar. Onde a vida é um palco e cada pessoa vive seu próprio colóquio, há imagens degradadas e utopias domesticadas; há a parte do grupo, da comunidade e do partido, que oferece agrados e seguranças; há a felicidade criada em função do outro para evitar ansiedades e angústias. A ideologia é tão forte que não se pode viver sem ela – e vive-se acreditando que não se tem ideologia. Porém, onde a vida é uma planície cercada por montanhas, há agora o deserto e o sol; há o sonho de conquistar o ideal; há a incorporação da dor para superá-la; há a própria razão a serviço dos sentidos esquecidos; há a passagem que aguarda o viajante retornar. O silêncio tão presente também tem algo a falar – e esse me diz que se eu trilhar tal deserto estarei fadado a viver um proscrito solitário; porém, antes, estarei poupado da crença nos desígnios totalitários e enganosos que as pessoas criam, sozinhas ou em grupo, para nos fazer confundir nossas boas intenções com seus projetos, e nos conquistar a fé.

Na dor e na solidão, estrênuo no deserto, salvo das amarras do passado e da memória, não há mais face a face, nem face a máscara. Dir-te-ia, nobre face eterna, pastor de ovelhas deixadas à esquerda, e também à direita – ou melhor, aos extremos –, reverendo de ajuntamento, recapitulação e totalização, quão misteriosa é minha opção ao desterro. No ardente, criei faces – ou máscaras? Tenho duas: uma para mim quando estou sozinho e outra para mim mesmo quando te vejo. Ao bateres à porta, visto-me, na veemência da decisão, com a máscara de fora. Esta é velha, uma vez que a vesti na juventude e não mudei deveras. Com qual falo agora? A máscara de dentro ou a máscara de fora? Como saberás, se elas mudam e transmudam frente a frente? A de fora tu podes reconhecer, se tiveres percepção para isso. Ela conflita, expõe e engana-me na tentativa de enganar-te. É maliciosa e fria, comigo e contigo. Ao primeiro vento ela cai, destroça-se, destroça-me e, talvez, destroçar-te-á – se uma vez me amaste. Sem a máscara de fora, aparecerá a máscara de dentro; mas apenas seu verso, aquele pelo qual observo e penso convencer, penso conviver, penso ludibriar. Eu vejo, tu vês, algo que não podemos compreender quando estou à frente da máscara que criei, e tu atrás da máscara que negas.

Nesta convivência construída por máscaras vagas, num outro universo estaremos. Um outro eu que pensa ser eu. Uma outra vida que pensa ser a minha. Alguém a vive, eu vivo, eu me vivo, eu a vivo – em mim, em ninguém. Pois, se no percurso do discurso eu tomar outra direção, quem serei? O de lá, que há de ser, ou o de cá, que está sendo? Se o de lá é a decisão que eu não tomei, é a vida que eu não vivi, é a existência que eu não contemplei, como poderei ser eu mesmo diante do mistério do universo? O mistério dos mistérios não é saber se viveremos para sempre, mas se viveremos o instante e o presente, sem máscaras e precedentes. O fundo sem fundo, enigma do mundo, virado do avesso para um verso sem par; este é infinito, solto no ar, nada a segurar, a não ser meu medo de voar... E esta máscara, que se volta para mim e transgrediu o cronos para o kairos, essa não quebrará, não cairá; é a máscara que vejo e sempre vi, que criei e sempre cultivei, que me reflete e sempre guardei. Polida, esculpida, almejada e realizada. Ela imita aquela máscara que coloquei na sua face para poder encantar-me com os caminhos pelos quais não percorri e cujas belezas não contemplei. E nunca nos veremos realmente, pois enquanto estou com minhas máscaras que atrapalham, que turvam, que deslizam e fingem ser livres e verdadeiras, tu estás com as tuas, e que não são mais puras.

Meu outro eu, longe, carrega minhas tentações, medos e aflições – na possibilidade de te agradar; enquanto que o meu eu, próximo, só te mostra minhas alegrias, felicidades e belezas – no vigor de te contentar. Quem me dera; eles são o mesmo, aqui e ali, deserto e montanha, com máscaras, uma para dentro e outra para fora. As máscaras de fora se olham como espelhos projetados para o nada do além vazio; sem sentido. As máscaras de dentro se dão as costas voltadas para o próprio mundo que tentam lograr; sem relação. Basta tanta falsidade, comprometida alteridade que nunca existiu e talvez nunca existirá, enquanto vivermos no imaginário de teatros onde a vida é confundida com os sonhos de quem deixou de amar.