Como o estúdio de um artista…

“A nossa vida social, assim como o estúdio de um artista, é preenchida com rascunhos abandonados uma vez imaginados, em forma permanente, na nossa necessidade por um grande amor. Porém, me passou pela cabeça, se o rascunho é muito antigo nós podemos retornar a ele e transformá-lo em uma obra totalmente diferente, possivelmente mais importante do que a que tínhamos planejado originalmente”.

Marcel Proust

Ilustração Craig Thompson @ www.craigthompsonbooks.com

Lua toda brilha

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
(Fernando Pessoa)

Para pensar…

Linda reflexão citada pelo professor de pintura do meu pai, Mauricio Takiguthi​ (autor da arte acima — que é um retrato do meu pai). Acredito que a reflexão, a despeito de tratar da criação artística, cabe para todas as áreas da vida que buscam um mundo melhor.

Burton Silverman: “(…), eu não tenho regras rígidas, tabelas ou discos cromáticos, mas um conjunto de metas conceituais e emocionais que requer flexibilidade e adaptação com o intuito de explorar a verdade na experiência pictórica. Em última instância, isto requer tanto autoconsciência quanto facilidade técnica. Neste sentido, serei sempre um aprendiz e minha arte sempre se encontrará neste estado contínuo de transformação.”

Luta Interior

Nikon + 50mm @ Outubro 2015

Encontros & Ventos

“Depois que cansei de procurar, aprendi a encontrar.
Depois que um vento me opôs resistência, velejo com todos os ventos”.

— Friedrich Wilhelm Nietzsche, in prelúdio de: A Gaia Ciência – Poema 02.

Helen & Isnard

Nikon + 50mm @ Vila de Paranapiacaba, SP.

Lançamento do livro Atmosfera

Eu vivo num mundo de fantasia
A realidade não é suficiente para mim…

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O bispo italiano César Barônio, na tentativa de valorizar a sua fé e, ao mesmo tempo, o conhecimento científico, disse no século 16: “O Santo Ofício nos ensina como se deve ir para o Céu, e não como vai o Céu”. Diante da oposição entre ciência e religião, a convivência com os diferentes discursos desafia a humanidade. O diálogo torna a diversidade da atmosfera habitável. Composto por sete crônicas, este livro apresenta os mesmos eventos do cotidiano em duas linguagens distintas: a literária e a filosófica. As narrativas se completam e apontam reflexões de um mundo possível motivado pela meditação e a coragem de ser. A publicação conta, ainda, com um apêndice de anotações literárias de temas artísticos.

Lançamento: 14 de Julho de 2015

Atmosfera

 

A Canção do “Tu”

Onde eu ando – Tu!
Onde paro – Tu!
Só Tu, outra vez Tu, sempre Tu!
Tu, Tu, Tu!
Quando estou bem – Tu!
E se a dor me vem – Tu!
Só Tu, outra vez Tu, sempre Tu!
Tu, Tu, Tu!
O céu – Tu, a terra – Tu,
Em cima – Tu, embaixo – Tu,
Em toda parte, onde quer que eu vá,
Só Tu, outra vez Tu, sempre Tu!
Tu, Tu, Tu!
(Martin Buber)

Desafio

Disnei Sanches, Nikon + 35mm

Castelos Tropicais

Duas pessoas se encontram. O despertar começa na jornada e a jornada começa no diálogo. Ana Maia conhece Bernardo e se reconhece em Bernardo. Seria ele o espelho dela? A cada conto, um passo no mundo; no conto seguinte, um passo na jornada interior. A genialidade poética envolve vida e pensamento de tal modo que a reflexão é a tarefa dos andarilhos. Budapeste se torna no recanto meditativo: o espaço aberto para a emancipação da menor boneca russa. Uma lição de auto-conhecimento. Em profundidade poética:

Já cumpri tantos fatos”, diz a narradora, “percorri diferentes veredas, no meu microcosmos desempenhei o que o universo parecia esperar de mim. Testei algumas mulheres em minha pele, uma de cada vez, procurando aquela que sentisse mais à vontade. Completei-me em alguns ciclos, fui sempre com intensidade nas paixões, nos trabalhos, nos projetos. Tive ambições, fiquei um pouco cega mas não desumana. Conheci lugares, sabores e culturas. Testei a neve e o fundo do oceano. Às pressas, cumpri as ideias rotuladas para…? Para me aposentar de mim mesma! Ofegante, completei a maratona para ter a chance de voltar a trilhar do início o que eu sempre quis“. (p. 87)

A leveza da narrativa de Clara Baccarin lembrou-me das palavras de Van Gogh: “Eu prefiro retratar os olhos das pessoas a catedrais, pois há algo nos olhos que não está nas catedrais. A autora conseguiu traduzir, com um estilo próprio, dona de uma síntese singular, a essência do olhar feminino. A leitura faz-se envolvente pois não se trata de um olhar qualquer, mas o olhar de uma mulher especial — palavras doces que tocam o íntimo –, mulher de coragem delicada, mulher de escolha descoberta, mulher que descostura as bordas da alma. O título do romance anuncia castelos, entretanto, certamente, dentro deste castelo estão os retratos dos olhos de duas personagens que, inquietas, incansáveis e insatisfeitas, entenderam que a vida pede, acima de qualquer viagem, por relacionamentos. Apesar das dificuldades, o relacionamento ideal, na ordem dos contos, termina no amor, uma vez que ele próprio é a verdadeira viagem.

Duas poesias chamadas Ana Maia e Bernardo se encontraram. Deste encontro, nasceu uma narrativa que construiu castelos tropicais.

BACCARIN, Clara. Castelos Tropicais. Lisboa: Chiado Editora, 2015, 124p.