Teatro do Sonho

Título: Teatro do Sonho
Subtítulo: O Milagre e o Palhaço
Edição: 1
ISBN: 9788562877292
Editora: Garimpo Editorial
Ano: 2012
Páginas: 140
Sinopse: Teatro do Sonho é uma obra que tem por tema central a postura e atitude diante da despedida e dos desafios impostos pelo cotidiano. Num primeiro momento – o performático – a narrativa carrega a máscara da personagem; num segundo momento – o onírico – a personagem carrega a máscara da narrativa. Os contos e crônicas que se encontram nesta obra, de motivação filosófica e religiosa, foram inspirados e redigidos em instantes de inquietação, dúvidas e transição.
Vitor Chaves de Souza, São Paulo, 2012
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[toggle title=”Ler a Introdução”]Há tempos encontrei alguns manuscritos perdidos dentro de um templo. Pressupus serem textos de uma mesma pessoa cujo interesse na escrita cruzava fronteiras da introspecção e predisposição espiritual. Juntos, a meu ver, apesar das datações diferenciadas, poderiam compilar uma única obra que pudesse ter, como tema e unidade central, a inquietação humana. Os textos deste livro são os relatos reconstruídos a partir destes registros de narrativas. Ao leitor deve interessar saber que alguns dos originais não possuíam títulos nem divisão, muito menos sequência, e que, infelizmente, tais documentos não existem mais – foram lançados à fogueira, acidentalmente, por um funcionário desavisado do templo Kapenke, onde me hospedei para a composição final deste livro; porém, com esforço, consegui reconstituir a maior parte do texto pela minha memória e mantive seu caráter onírico e misterioso, apesar de dar a ordem que julguei ser a mais apropriada para a leitura.

—Jorge de Totono [/toggle]

[toggle title=”Ler o Primeiro Capítulo”]

Teatro do Sonho

Naqueles dias, prestando alegria e tristeza, no barco frágil da realeza, em direção à margem calma; se me visse na tempestade, teor da glória passada, o sofrimento em meus olhos, a força em meus braços, a dedicação em minha alma, poderia encantar-se e redescobrir-se em sua própria jornada, ao invés de tirar-me o previsto para reafirmar-se diante dos outros – diante de mim. Não pude evitar o devir do porvir. Frente ao meu desafio ontológico, daquele sopro divino que acalma o balanço e ergue o corpo – o toque incondicional que a vida dá em cada pessoa – encontrei a indecisão: negação da decisão; mais forte que a dúvida é negar nossa própria escolha. É optar por algo e negar o compromisso e as consequências da opção. É, no fim, encontrar o não-encontrável. Pois só posso encontrar o que conheço ou busco conhecer; só posso encontrar quem vejo ou quem desejo ver; só posso encontrar aquilo que sou ou que desejo ser – e quando penso ter encontrado algo novo, apenas reconheci aquilo que eu já conhecia em algum lugar dentro de mim. Um momento sozinho é impossível quando os amigos, aqueles que nos divertem, fazem-nos esquecer do desafio primeiro de nossas vidas. Dói falar disto, mas no final quem alcança seu projeto? Entregam-se aos confortos da alma, às convicções da mente, aos recreios que evitam a mudança ao esconderem – ou transmudarem – suas próprias faces.

Agora, o que se passa, tudo passa, na vila e na cidade, astúcia na alteridade da própria identidade. Que se passa neste deserto que caminho, quase sagrado, voltado para o próprio agrado do recanto verossímil do imaginário? Disse um filósofo que uma ave desejou extinguir o ar para que ela pudesse voar com mais liberdade. Mas, sem o ar a ave caiu e suas asas de nada adiantavam. Paradoxalmente, o atrito do ar é que faz a ave voar, tornando-a livre. Eu poderia me adaptar às mediocridades da cultura e da tecnologia, do conforto dos partidos políticos, da avareza das religiões, numa vida sem problemas, sem desafios e sem ar para voar; ou poderia adentrar no deserto e viver tensões profundas, de questionamentos e respostas que muitos temem procurar. Onde a vida é um palco e cada pessoa vive seu próprio colóquio, há imagens degradadas e utopias domesticadas; há a parte do grupo, da comunidade e do partido, que oferece agrados e seguranças; há a felicidade criada em função do outro para evitar ansiedades e angústias. A ideologia é tão forte que não se pode viver sem ela – e vive-se acreditando que não se tem ideologia. Porém, onde a vida é uma planície cercada por montanhas, há agora o deserto e o sol; há o sonho de conquistar o ideal; há a incorporação da dor para superá-la; há a própria razão a serviço dos sentidos esquecidos; há a passagem que aguarda o viajante retornar. O silêncio tão presente também tem algo a falar – e esse me diz que se eu trilhar tal deserto estarei fadado a viver um proscrito solitário; porém, antes, estarei poupado da crença nos desígnios totalitários e enganosos que as pessoas criam, sozinhas ou em grupo, para nos fazer confundir nossas boas intenções com seus projetos, e nos conquistar a fé.

Na dor e na solidão, estrênuo no deserto, salvo das amarras do passado e da memória, não há mais face a face, nem face a máscara. Dir-te-ia, nobre face eterna, pastor de ovelhas deixadas à esquerda, e também à direita – ou melhor, aos extremos –, reverendo de ajuntamento, recapitulação e totalização, quão misteriosa é minha opção ao desterro. No ardente, criei faces – ou máscaras? Tenho duas: uma para mim quando estou sozinho e outra para mim mesmo quando te vejo. Ao bateres a porta, visto-me, na veemência da decisão, com a máscara de fora. Esta é velha, uma vez que a vesti na juventude e não mudei deveras. Com qual falo agora? A máscara de dentro ou a máscara de fora? Como saberás, se elas mudam e transmudam frente a frente? A de fora tu podes reconhecer, se tiveres percepção para isso. Ela conflita, expõe e engana-me na tentativa de enganar-te. É maliciosa e fria, comigo e contigo. Ao primeiro vento ela cai, destroça-se, destroça-me e, talvez, destroçar-te-á – se uma vez me amaste. Sem a máscara de fora, aparecerá a máscara de dentro; mas apenas seu verso, aquela para qual observo e penso convencer, penso conviver, penso ludibriar. Eu vejo, tu vês, algo que não podemos compreender quando estou a frente da máscara que criei, e tu atrás da máscara que negas.

Nesta convivência construída por máscaras vagas, num outro universo estaremos. Um outro eu que pensa ser eu. Uma outra vida que pensa ser a minha. Alguém a vive, eu vivo, eu me vivo, eu a vivo – em mim, em ninguém. Pois, se no percurso do discurso eu tomar outra direção, quem serei? O de lá, que há de ser, ou o de cá, que está sendo? Se o de lá é a decisão que eu não tomei, é a vida que eu não vivi, é a existência que eu não contemplei, como poderei ser eu mesmo diante do mistério do universo? O mistério dos mistérios não é saber se viveremos para sempre, mas se viveremos o instante e o presente, sem máscaras e precedentes. O fundo sem fundo, enigma do mundo, virado do avesso para um verso sem par; este é infinito, solto no ar, nada a segurar, a não ser meu medo de voar… E esta máscara, que se volta para mim e transgrediu o cronos para o kairos, essa não quebrará, não cairá; é a máscara que vejo e sempre vi, que criei e sempre cultivei, que me reflete e sempre guardei. Polida, esculpida, almejada e realizada. Ela imita aquela máscara que coloquei na sua face para poder encantar-me com os caminhos pelos quais não percorri e cujas belezas não contemplei. E nunca nos veremos realmente, pois enquanto estou com minhas máscaras, que atrapalha, que turva, que desliza e finge ser livre e verdadeira, tu estás com as tuas, e que não são mais puras.

Meu outro eu, longe, carrega minhas tentações, medos e aflições – na possibilidade de te agradar; enquanto que o meu eu, próximo, só te mostra minhas alegrias, felicidades e belezas – no vigor de te contentar. Quem me dera; eles são o mesmo, aqui e ali, deserto e montanha, com máscaras, uma para dentro e outra para fora. As máscaras de fora se olham como espelhos projetados para o nada do além vazio; sem sentido. As máscaras de dentro se dão as costas voltadas para o próprio mundo que tentam lograr; sem relação. Basta tanta falsidade, comprometida alteridade que nunca existiu e talvez nunca existirá, enquanto vivermos no imaginário de teatros onde a vida é confundida com os sonhos de quem deixou de amar.

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Trailer do livro

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Crítica

O prefácio indicou o caminho: escritos perdidos, encontrados, perdidos novamente, fragmentados, reescritos pelo ato da memória, fica o teor antigo e hermético. Disseste bem em nossa última conversa: existencial. Não digo gosto e não digo desgosto porque isso fica para tolos. Está escrito, exprimiste a ambiguidade de Ser, Teatro do Sonho, de máscaras.

Luis Heleno Montoril Del Castilo
Professor da Faculdade de Letras
da Universidade Federal do Pará

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Resenhas

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Considero Jorge de Totono, de cujas memórias é feito este Teatro do Sonho, um altruísta. Digo isso porque, quiçá, fosse a possibilidade de refletir que, antes de tudo, ele desejava salvar da fogueira – tão escassa, mas tão necessária, nos dias que correm. Nutrido por aquilo que seu genial autor trouxe da boa literatura, a saber, a negação dos dualismos, a dialética, a concepção fantástica e não-linear do tempo, esse personagem não apenas nos legou um misterioso e onírico manuscrito, mas um conjunto de inquietações que iluminam os dilemas de nossa condição humana.

Alan Faber do Nascimento
Professor do Departamento de Turismo da
Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri

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Penso que o texto é bem denso e aprofunda bem a importante relação do ser enquanto projeto em relação ao ser vivido, como também dos impeditivos de se encontrar realmente o outro. Em Heidegger esse seria o atravessamento do ôntico ao ontológico; mentimos no dia a dia a reflexão da existência por um estéril escarnio de festas e afins. Poucas vezes nos destituímos das mascaras que usamos e penso que isso se de porque tememos revelar aquilo que temos de mais intimo.Eu parei e pensei, me permiti olhar para a vida dos homens que se esqueceram do que é o amor pela vida e que por isso construiu monumentos a abstrações do que é o mundo e a vida e percebi, felizmente, que ainda há vida. Há pelo que lutar e viver uma vez que encontramos, vez ou outra, amigos com quem podemos conversar de verdade.

Fábio Fonseca
Psicólogo e filósofo

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